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Qual é a tendência do preço do café na ICE? Por Francisco Ourique

O mais extraordinário, é que a opinião unânime do mercado na época, salvo dos fundos comandados por programas de computador, era de que a baixa era passageira.

 

postado em 18/10/2017 | Há 4 meses

Desde meados de janeiro do ano em curso a Bolsa de Nova Iorque - ICE ingressou numa trajetória de baixa de 50 centavos de dólar por libra peso, equivalente a R$ 213 por saca de café. O mais extraordinário, é que a opinião unânime do mercado na época, salvo dos fundos comandados por programas de computador, era de que a baixa era passageira.

Vamos recordar o movimento das cotações dos últimos anos.

Em 2014, a cotação do café da ICE ficou a maior parte do tempo confinada entre 180/200 centavos de dólar por libra peso. No ano seguinte, 2015, entre 140/120. Já em 2016, a trajetória de preços foi ascendente de forma consistente, de 120 para 178.

Os intervalos anuais das cotações estão postos de forma a espelhar se o valor oscilou positivamente ou negativamente.

De 2014 até 2017 o Brasil veio apresentando excelente desempenho nas suas exportações de café, uma quebra significativa no volume de produção, no ano 2015/16, e a taxa de câmbio flutuando de R$2,34 a R$ 3,99 por dólar americano.

Arrolei os dados acima para chamar a atenção de que a volatilidade observada nos últimos anos ensejou escala de operações com o café brasileiro em patamar recorde.

O Brasil foi agressivo em diferenciais de venda, que nada mais são do que descontos de preço; os produtores, cooperativas e empresas de insumos agrícolas passaram a vender volumes crescentes de cafés de safras futuras, de 2 até de 3 anos-safra á frente, todos tirando proveito do fato do comércio, nacional ou internacional, querer e/ou poder pagar mais caro pelo café para entrega futura contra o valor dos negócios de curto prazo.

Não era para menos.

Com as cotações da ICE a cada 12 meses com prêmio de 8% a 6% sobre a cotação do café do mês presente combinado com a projeção da taxa de câmbio do Real corrigida pela inflação acima de 10% ao ano, fora prêmios de risco, todos os membros do mercado que lidam com café brasileiro estavam em uma fase de prosperidade; negociar café brasileiro era o negócio, líquido e certo, do produtor brasileiro ao industrial de todos os cantos do planeta.

O Brasil chegou a vender café arábica de boa qualidade, bebida, tipo e peneira, com trinta por cento de ágio sobre o valor do café robusta.

Batemos a marca de 35 milhões de sacas de exportação e já havia analista no Brasil indicando ao mundo que o próximo passo era a quebra do patamar de 40 milhões de sacas, praticamente um terço do fluxo médio das exportações mundiais de café.

O leitor deve estar questionando o que tudo isso tem haver com a tendência dos preços do café, ao que peço paciência, vamos chegar lá.

Ao longo dos últimos três anos os estoques no exterior apresentaram elevação de seis milhões de sacas, cabendo ao Brasil participação relativamente pequena pela simples razão de que o produto arábica natural brasileiro só tem um tomador final – a indústria – enquanto cafés arábicas de outras origens podem trocar de mão por intermédio da ICE.

A dinâmica do mercado, fluxos de negócios de curto, médio e longo prazo passou por uma excepcional fase nos últimos anos, dando a impressão que a vitalidade do mercado não tinha limites.

Tudo mudou.

A competitividade brasileira secou, os preços de oferta que o Brasil vem oferecendo ao mercado mundial há meses, desde o inicio de 2017, não encontra comprador, salvo operações pontuais ou cobertura de comerciantes internacionais que precisam cumprir compromissos com clientes industriais, o que estão fazendo com prejuízo.

As vendas externas realizadas em 2016 para entrega ao longo da safra de 2017/18 estão com preços, diferenciais, desalinhados com o preço corrente do café no Brasil. ICE caiu e o valor da saca do produto no Brasil não caiu na mesma proporção.

Resultado, o mercado não esta líquido e a carteira de negócios já compromissados para entrega até junho de 2018 dos exportadores e de comerciantes internacionais está com resultado, se efetivado hoje, no vermelho.

Esta armadilha, por assim dizer, poderá ter outro desfecho se a indústria mundial vier a pagar os preços correntes do café brasileiro.

Ela está relutante e não dá liquidez; quer os diferenciais mais largos, que prevaleceram pelos últimos três anos, assim como do café que está sendo embarcado desde o início da safra de 2017/18, viabilizados pelas operações futuras realizadas pelos produtores ao longo do ano passado.

A prevalecer este comportamento dos agentes comerciais e industriais, o fluxo das exportações brasileiras dos próximos meses poderá continuar em patamares baixos, lembrando que a média mensal de julho à setembro de 2017 está em 2,2 milhões de sacas.

Agora podemos entrar no assunto da tendência dos preços internacionais, da ICE!

No presente patamar das cotações da Bolsa ICE nenhum produtor de nenhum país exportador do mundo está livrando lucro vendendo seu café.

O mundo ainda não acordou para a quebra da produção brasileira da safra de 2017/18 e para o fato de que a safra de 2018/19 não será a maior das maiores, sendo prematuro tentar adivinhar seu volume, mas será um ano de alta do ciclo bienal se o clima assim permitir!

O fato é que a produção brasileira de 2017/18 foi da ordem de 48 milhões de sacas, suficiente para atender o consumo interno de 19 milhões e exportar 29 milhões.

De toda sorte, os demais produtores de café do mundo suspeitam de que o Brasil irá continuar a vender volumes expressivos de café; expectativa que não irá se confirmar, pelas razões arroladas anteriormente, se a cotação da ICE não apresentar substancial ALTA!

O comportamento dos produtores de café da Colômbia e da America Central na comercialização da safra com início em janeiro de 2018 fará toda a diferença e determinará o comportamento da cotação da ICE. A situação brasileira já é conhecida e os agentes comerciais não querem ou não podem consolidar os preços vigentes no mercado interno contra o presente patamar da ICE.

A ICE tem que subir se prevalecer os fundamentos do Brasil.

Para os demais países exportadores de cafés arábicas a situação é semelhante, a ICE tem que subir. Para a indústria, que supri os consumidores e a prateleira dos supermercados, a tranquilidade de fluxo e da formação internacional de preços é o que interessa.

O mercado parece ter uma opinião unanime: ICE tem que subir!

Mas, a operação dos fundos de commodities, vendidos persistentemente há vários meses tem adiado o que parece inevitável.

O que fazer?

Aos agentes privados não há muita opção á vista, afinal comerciantes que dominam de forma concentrada o setor vivem da compra e venda com expectativa de lucro. Sem volatilidade e tendência clara de preços, a meia dúzia de empresas que dominam o setor está de mãos e pés amarrados, concentrados, alguns, em minimizar o prejuízo dos seus livros já compromissados.

A chave do mercado de curto prazo está na mão e na resistência do produtor brasileiro e das cooperativas.

O que podem fazer os produtores e as cooperativas ?
Política e articulação internacional!
Afinal, temos todas as ferramentas!
 

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