Produção

ENTREVISTA = “Cafés especiais é um mercado em expansão”, afirma Flávia Lancha Oliveira

 

postado em 27/12/2011 | Há 6 anos

Flávia Lancha Oliveira é a entrevistada deste mês da Revista Attalea Agronegócios. Nesta reportagem, a cafeicultora comenta um pouco sobre cafés especiais e dá algumas dicas para produtores que querem investir neste mercado.

Sócia-proprietária e diretora da Labareda Agropecuária, empresa produtora de cafés especiais, Flávia tem anos de experiência e uma ótima visão de mercado.

Referência na região, a Labareda começou a vender cafés especiais em 2006, depois de conquistar a certificação pela Utz Capeh. Atualmente, a empresa é certificada pela Rainforest Alliance e exporta mais de 90% da produção.

Os grãos produzidos na Labareda são exportados principalmente para a Europa e o Japão, mas parte da produção também é destinada ao mercado norte-americano, Austrália e Nova Zelândia.

Como você avalia o mercado de cafés especiais?

O mercado de cafés especiais é um mercado em expansão, interessante e muito atrativo. É um conceito que ainda está em desenvolvimento, mas a procura é crescente. O mercado de cafés especiais engloba vários pontos. O primeiro é qualidade. O café precisa ter uma pontuação acima de 80 pontos na escala SCAA (Associação Americana de Cafés Especiais) para ser tido como especial. Outro ponto é a sustentabilidade, que hoje está muito ligada com as certificações. Qualidade e sustentabilidade caminham juntos e o mercado está buscando aliar os dois pontos.

O café para exportação segue um padrão?

O café exportado normalmente segue um padrão que é por tipo de peneira. Existem três tipos: 17/18, 14/16 e abaixo de 13. O café 17/18, é um grão graúdo e pode ter no máximo 12 defeitos. O 14/16 é mais miúdo e tem que ter no máximo 30 defeitos. E depois o grinder, abaixo de 13, que resida desses outros cafés. O preço da saca varia conforme a peneira.

Como são feitos os negócios?

O mercado tem algumas variáveis: pode ser vendido diretamente aos compradores ou por grandes exportadores que compram e exportam. Na venda direta os cafés são entregues em containers no Porto de Santos e vão direto, por navio, para o comprador.

Hoje trabalhamos principalmente através de uma corretora que faz contato com exportadores e a parte burocrática, mas também temos este contato com os compradores. Nós já estivemos no Japão e na Europa e eles já vieram ao Brasil conhecer nossas fazendas.

Existe venda futura de cafés especiais?

Sim, existe e tem muita procura. As primeiras vendas só são feitas com amostra, depois que o café já está colhido, pronto. No primeiro ano é preciso fazer este estoque.

O mercado de cafés especiais é muito interessante. A partir do momento que você já tem uma credibilidade, o comprador aparece no mercado em uma determinada época, compra o quanto precisa e paga o preço. Cada comprador tem uma época de vir ao mercado. Essa é uma diferença em relação a commodity, que você vende quando precisa. Em exportação direta o ideal é vender quando o cliente vai comprar.

Eles vêm naquela determinada época, compram o quanto precisam e saem do mercado.

Qual a diferença entre vender commodity e vender cafés especiais?

Existem muitas diferenças. Primeiro, no café especial, apesar de agregar valor, você tem que conquistar o seu cliente. Isso demanda um tempo. É preciso estar preparado, ter paciência até conseguir conquistar credibilidade para agregar valor.

O grande problema é que as pessoas não têm paciência. O cafeicultor não tem essa cultura de esperar, de vender quando o mercado quer comprar, ele vende quando precisa.

Em commodity seu café é mais um, não é diferenciado, porém você vende a hora que quiser do jeito que quiser.

Você tem alguma dica para quem quer começar?

A primeira dica é: faça café de qualidade. Café especial é especial! A segunda dica: separe um lote, pode ser pequeno, e faça especial, venda especial, tenha paciência, espere, amadureça, não disponha deste café.

Outra dica é buscar uma certificação. Com a certificação a fazenda ganha muita visibilidade e credibilidade. O cliente já sabe que na sua fazenda não tem exploração, trabalho escravo ou infantil e que você cuida do meio ambiente. Isso já é um grande passo para abrir o mercado.

E como funciona o processo de certificação?

Primeiro é preciso se adequar as normas regulamentadoras. Siga a NR-31 (Norma Regulamentadora de segurança e saúde no trabalho na agricultura) ao pé da letra! A certificação é uma empresa internacional que vem assegurar se você segue as normas do país. Então você tem que seguir normas trabalhistas e ambientais. Este é o passo básico.

Como você avalia os cafés especiais da Alta Mogiana?

A região da Alta Mogiana tem um solo e um clima propício para a produção de cafés especiais. Tem muito potencial, mas faz menos do que poderia. Em comparação com outras regiões, como Sul de Minas e Cerrado, a Alta Mogiana está muito atrás.

É questão de o próprio produtor estar atento. Ele não vai ter um gasto a mais para produzir um café de qualidade, apenas precisa de um cuidado a mais.

 

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