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O real forte é um obstáculo superável

Pergunte a qualquer exportador brasileiro qual é o maior entrave para o comércio exterior do País e ele dirá o câmbio

 

postado em 27/06/2011 | Há 6 anos

Dinheiro Rural

27/06/2011
 

Pergunte a qualquer exportador brasileiro qual é o maior entrave para o comércio exterior do País e ele dirá o câmbio
 
Por Guilherme Queiroz
O presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Maurício Borges, no entanto, considera o real valorizado um obstáculo superável, quando se compete com produtos estrategicamente colocados no mercado internacional. Para ele, empresários brasileiros têm conseguido vencer a barreira cambial investindo em design e inovação, criando mercados cativos. “Não adianta ser o maior, tem de ser o melhor”, disse Borges à DINHEIRO. Já a China, considerada pela indústria brasileira a grande ameaça da atualidade, é vista por Borges como um mercado repleto de oportunidades. “A China tem uma classe média de 300 milhões de pessoas”, afirma. “Não podemos ficar fora desse mercado.”

DINHEIRO – O dólar cada vez mais fraco, em relação ao real, tem sido uma espécie de barreira psicológica para o empresário que pretende começar a exportar?

MAURÍCIO BORGES – Não podemos ignorar o câmbio. É importante, sim, mas o real forte é um obstáculo superável para os exportadores. Há vários outros fatores que levam uma empresa a ser mais competitiva, além da moeda. As empresas devem investir em tecnologia, em inovação e em design, para competir, globalmente, em outro patamar. A Alemanha tem o euro, a Inglaterra tem a libra, ou seja, moedas muito valorizadas mundo afora e, ainda assim, esses dois países exportam muito em vários segmentos. O Brasil já teve dólar a R$ 4, a R$ 3, há alguns anos, e exportávamos muito menos. Nós temos, sim, condição de brigar num outro patamar, que é o de produtos diferenciados, com design e inovação.

DINHEIRO – Em que setores manufatureiros o Brasil está preparado para competir em alto nível?

BORGES – Há vários setores em que já atingimos um patamar de qualidade reconhecido em diversos países. Na área de software – bancário, de segurança, de animação – o Brasil é um grande player, e pouca gente conhece. Temos centros de excelência, com tecnologia de ponta, também no setor aeroespacial, na indústria de máquinas e equipamentos. Os nossos vinhos espumantes são competitivos e o nosso vinho tinto tem se tornado cada vez mais atraente, resultado de muito investimento das vinícolas. No setor de calçados, a marca Olympikus, por exemplo, tem um produto de altíssima qualidade e 100% nacional.

DINHEIRO – Alguns países, como os Estados Unidos, têm tradição em campanhas de valorização do produto nacional. É hora de valorizar o made in Brazil?

BORGES – O made in Brazil já vem sendo valorizado lá fora. Há algum tempo isso não acontecia, e havia um certo complexo de vira-latas por parte dos brasileiros. Temos a oportunidade de percorrer o mundo e vemos que todos querem nossos produtos. O café brasileiro, por exemplo, é um produto que voltou a ser referência e lembrado pela altíssima qualidade.

DINHEIRO – Os aviões da Embraer são o único produto manufaturado, atualmente, entre os dez itens mais exportados pelo Brasil. Ainda vai demorar para o País ter mais produtos industrializados nessa lista?

BORGES – A gente já vem ocupando alguns espaços. O setor de software tem como clientes vários bancos americanos e empresas de segurança, equipados com produtos nacionais, e a participação dessas empresas no mercado mundial cresce a cada dia. A Stefanini, empresa de soluções em TI, por exemplo, está em mais de 40 países, com softwares de segurança para bancos. É uma empresa que começou pequena, agora está na América do Norte, na Europa e na China. A Stefanini é um exemplo desse trabalho de mudança de pauta, com produtos de alto valor agregado. Não somos líderes, mas já começamos a agregar valor a muitas cadeias. Não adianta sermos o maior, temos de ser o melhor.

DINHEIRO – O empresário que quer se tornar exportador se intimida com os problemas estruturais do País, como burocracia, carga tributária e falta de estrutura aduaneira?

BORGES – Sim, isso atrapalha. Mas há vários fatores, como a questão da infraestrutura, que estão sendo trabalhados pelo governo. Com o PAC, houve um aumento de investimentos em estradas e portos, e isso vai dar condições para que possamos bara-tear nossos produtos, torná-los mais competitivos. O setor de carga aérea, por exemplo, está mais dinâmico. A empresa Emirates Airlines, há um ano, operava uma linha semanal de Viracopos, em Campinas, no interior paulista. Hoje, ela já tem quatro por semana.

DINHEIRO – A indústria se queixa das dificuldades de concorrer com a China, que está levando à substituição da produção nacional por importados. Como nossos produtos podem competir lá?

BORGES – A relação vem evoluindo há algum tempo. Há dois anos, fizemos um estudo que mostrou que temos competitividade na China nos setores de alimentos e de moda (calçados, confecção, joias e cosméticos). Recentemente, alguns fabricantes nacionais foram a Xangai para uma mostra e decidiram abrir uma loja multimarcas, focada em calçados de US$ 200 a US$ 250 o par. É um produto de altíssimo valor que não vai competir com o de baixa qualidade. Hoje, a China tem uma classe média de 300 milhões de consumidores e, em 2015, terá uma classe A de 150 milhões – isso é quase um Brasil. É esse público que estamos buscando.

DINHEIRO – No encontro dos Brics, na China, discutiu-se a possibilidade de comércio em moeda local. Qual é a importância dessa medida?

BORGES – Facilitaria muito termos uma moeda que fosse aceita por todos os Brics, sem incluir uma terceira moeda nos negócios. Essa medida reduziria custos, tempo das operações, além de simplificar processos aduaneiros. Estamos falando de um mercado com 1,3 bilhão de pessoas na China, 1,1 bilhão na Índia, 190 milhões no Brasil. Estamos falando de mais de 2,6 bilhões de pessoas. É muita coisa. Facilitar propiciaria um grande salto nessas relações comerciais, principalmente para as empresas brasileiras.

DINHEIRO – Como a crise nos mercados europeu e americano tem afetado a entrada de produtos brasileiros?

BORGES – A Europa é um mercado que se tem protegido mais desde a crise. Há algumas barreiras técnicas sendo erguidas, o que acaba afetando sim a entrada de certos produtos. Porém, a economia europeia não consegue suprir tudo o que o mercado necessita. O trabalho do nosso escritório em Bruxelas, sede da União Europeia (UE), é identificar esses gargalos e mostrar para o mercado europeu a qualidade e a tecnologia dos produtos brasileiros para que, antes de tomarem as medidas de restrição, eles conheçam os fornecedores. Às vezes, os europeus erguem barreiras sem conhecer direito o assunto. Um exemplo foi a Irlanda, que barrou a carne bovina brasileira. Depois, não conseguiu suprir a própria demanda.

DINHEIRO – Como as empresas brasileiras podem se prevenir contra esse protecionismo?

BORGES – Percebemos que, quando tentamos exportar para algum país que não quer impor barreiras próprias, ele repassa o assunto para a União Europeia (UE). O que nós fazemos, tanto com esses países quanto com a UE, é mostrar que cumprimos regras, que temos uma legislação ambiental, para nos prevenirmos. Também olhamos barreiras que estejam sendo elaboradas na região para já informarmos a indústria, de modo que ela possa se antecipar ao protecionismo do continente.

DINHEIRO – Os impasses sobre tarifas comuns no Mercosul têm sido um empecilho à entrada de produtos brasileiros nos países do bloco?

BORGES – Talvez tenhamos dificuldades, em um momento ou outro, como tivemos com a Argentina, recentemente, com o excesso de salvaguardas, naquele país, aos produtos brasileiros. Mas a Argentina é um grande mercado. Temos, também, outros países aí que são grandes clientes do Brasil e acabam complementando nossas cadeias. Se há uma dificuldade com a Argentina, nós podemos procurar o Uruguai ou o Paraguai, que são grandes consumidores de produtos brasileiros.

DINHEIRO – Os países do Mercosul caminham para integrar suas cadeias produtivas, como previa a concepção do bloco?

BORGES – A gente tem procurado criar as condições para que as cadeias busquem se complementar entre os países. Pode-se importar um produto de um país, agregar valor num outro e exportar para a Europa ou para a Ásia, por exemplo. Por outro lado, há dificuldades em setores como o da linha branca produzida no Brasil, que sofre barreira na Argentina. Mas isso tem evoluído. Talvez não na quantidade que a gente gostaria e esperava, mas tem acontecido, com certeza.

DINHEIRO – O que a agência pode oferecer às empresas com vocação exportadora?

BORGES – O principal foco do nosso trabalho é levar informação comercial para que o empresário consiga encontrar melhores condições de competitividade no mercado internacional. Temos uma área de inteligência com acesso a todos os bancos de dados do mundo que fornece informações sobre os destinos para os quais os empresários podem exportar, quem são seus competidores, custos de transporte marítimo e aéreo, etc. São indicações que os ajudam a tomar a decisão correta e evitar a indecisão. Nossos valores estão menos no câmbio e mais na moeda da inovação, da criatividade.

 

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