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Tecnologia é arma contra alta de preços de alimentos nos países latino-americanos

 

postado em 29/04/2011 | Há 7 anos

29/04/2011 
  
 
 
Marilia de Camargo Cesar | Do Rio Valro Economico

Com uma participação crescente nas exportações agrícolas mundiais, os países da América Latina, em especial o Brasil, podem ter um papel global mais relevante na solução para o problema do aumento do preço dos alimentos. Para isso, tecnologia é a palavra-chave. Experiências com novas variedades de sementes e de manejo, conduzidas pela Embrapa, podem ajudar a elevar o país a uma posição de ainda maior destaque numa conjuntura internacional de carestia, em que a demanda por grãos e proteína animal cresce mais rapidamente que a oferta.

"A engenharia genética e a nanotecnologia vão se encarregar de dar as respostas a essas necessidades no longo prazo, não vejo dificuldades sérias nesse processo", disse Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV-Agro), um dos participantes do painel do Fórum Econômico Mundial que debateu o papel latino-americano na questão da segurança da produção global de alimentos. Segundo estudo do Banco Mundial (Bird), a América Latina aumentou de 11% para 14% sua fatia nas exportações agrícolas globais entre os períodos de 1995-1999 e 2006-2009. A região responde por quase um terço das exportações de milho, 52% das vendas externas de soja, 7% de arroz e trigo, 44% de carne, 42% de frango e 17% de carne suína. O estudo do Bird também informa que a região exporta 70% das bananas, 45% do açúcar e 45% do café.

Uma nova forma de cultivo integrado entre grãos, pecuária e florestas foi citada por Rodrigues como "revolucionária" no alcance de maiores produtividades no campo. A técnica consiste em plantar pastagens conjuntamente às lavouras de grãos, como milho e soja. Na fase de colheita, os campos já estão "calibrados" com alimento para o gado, que terá o "volumoso e as proteínas" (restos das oleaginosas) necessários para uma engorda eficiente, segundo explicou o ex-ministro. "É o ovo de Colombo e vai revolucionar a tecnologia das pastagens", disse.

Sem equacionar seus gravíssimos problemas de logística e infraestrutura, contudo, nem o Brasil nem os demais países latinos conseguirão alcançar esse papel de destaque. "Para que a agricultura seja esse motor há três fatores que precisam melhorar: tecnologia, liberalização do comércio e, o aspecto-chave, infraestrutura", disse Pedro Parente, presidente e principal executivo da Bunge. Segundo ele, a tecnologia já colaborou, historicamente, para uma queda nos custos da produção de alimentos, mas "uma nova etapa de redução de preços é necessária. Sem atacar o problema da infraestrutura, isso não será obtido."

Parente citou o custo de frete de uma tonelada de soja, da fazenda até o porto no Brasil: US$ 84, diante de US$ 21 nos EUA e US$ 23 na Argentina. "Poderíamos produzir 50% mais no Mato Grosso somente com melhorias de infraestrutura, sem aumentar área de plantio."

De nada vale produzir mais alimentos para matar a fome do planeta se o protecionismo dos países mais desenvolvidos impede uma troca justa entre as partes, argumentaram alguns participantes. A conclusão da Rodada Doha de comércio foi apontada como essencial para esse fim. "Isso só vai mudar se houver uma conclusão bem-sucedida da agenda de Doha, para que se possa levar os alimentos aos países que deles precisam", disse James Bacchus, presidente do Greenberg Traurig, um grande escritório de advocacia dos EUA. Ele se referia à crescente volatilidade nos preços das commodities agrícolas.

Bacchus alertou para o perigo de se usar o discurso da sustentabilidade em defesa da agricultura. Quando Luis Montoya, presidente da Pepsi Co Peru, mencionou a preocupação com a qualidade de vida das pequenas comunidades rurais produtoras de insumos para a indústria de alimentos, Bacchus afirmou: cuidado ao usar esse argumento nas rodadas comerciais, porque é o mesmo usado pelos franceses para proteger, com subsídios, os seus produtores.

 

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