Mercado

Setor cafeeiro no Brasil pode melhorar

Alto preço de exportação e mercado consumidor devem trazer investimentos às lavouras; porém, produto deve faltar em 2015

 

postado em 26/03/2011 | Há 7 anos

Vitor Oshiro | Jornal da Cidade - Baurú

Apesar de o Brasil ser o maior produtor mundial de café, o baixo estoque do País vai fazer com que a população sinta leve aumento no preço do produto. Segundo previsões de especialistas, em 2015 o quadro tende a piorar, uma vez que, nessa data, o consumo vai superar a produção. Porém, todo o panorama preocupante ganha uma expectativa otimista com a alta do preço de exportação do café e com o crescente mercado consumidor, que, juntos, criam um “novo perfil” cafeeiro no Brasil.

Segundo Maurício Lima Verde, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) e representante dos produtores brasileiros do setor privado na Organização Internacional do Café (OIC), o problema no setor se arrasta há anos.

“O preço de exportação sempre foi muito baixo. Muitos produtores vendiam abaixo do preço de custo somente para saldar dívidas. Com isso, não sobrava dinheiro para investir na lavoura e a produção não foi estimulada”, explica.

De acordo com Lima Verde, exatamente por isso os estoques tanto nacionais quanto internacionais estão cada vez mais baixos. “O consumo aumentou e, por esses problemas, a produção não acompanhou o ritmo. Os estoques estão bastante baixos e nossa previsão é de que, em 2015, o produto esteja em falta”.

Alívio

Entretanto, a situação começa a apresentar sinais de alívio. Lima Verde aponta que o preço de exportação da saca (60 quilos) do produto chegou ao valor mais alto dos últimos 15 anos. “Cada saca está sendo vendida atualmente pelo valor de R$ 520,00 a R$ 550,00. Esse preço dobrou ao que era no ano passado, quando cada saca era vendida por apenas R$ 260,00”.

As expectativas são de que esse preço continue para a safra 2010/2011 - que vai de maio a setembro - e que a comercialização possa iniciar um “novo perfil” cafeeiro no País. “Os produtores já venderam tudo que tinham pelo preço do ano passado (R$ 260,00). O custo de produção é R$ 350,00 a R$ 380,00. Com a alta no produto nesse ano, esse lucro virará investimento para as lavouras”, prevê.

É exatamente para discutir esse quadro emergente que Maurício Lima Verde embarcou ontem para Londres, onde, durante cerca de uma semana, participará de uma reunião da OIC.

Todavia, mesmo antes das considerações oficiais, ele acredita que tal estímulo iniciado agora não será capaz de equilibrar rapidamente os níveis de produção com os de consumo. “Mesmo que esse ‘novo perfil’ e esses investimentos na lavoura comecem e se mantenham, o ritmo do consumo, que cresce bastante, não será acompanhado. Não será em curto prazo que a falta de investimento e os problemas carregados de anos anteriores serão compensados. Por isso, há a previsão de que, em 2015, falte o café”.

Saúde

Outro tópico que também influi diretamente para o aumento do consumo são as pesquisas indicativas de que o café pode fazer bem à saúde. Entre os benefícios da ingestão do produto citados em estudos científicos estão alguns relacionados à função hepática do organismo humano.

“Há uma política chamada ‘Café e Saúde’. Nela, desenvolveu-se uma série de pesquisas mostrando que o consumo adequado do café, ao contrário do que se acreditava, pode trazer benefícios à saúde como cardiovasculares e diabetes. Isso está aumentando ainda mais o consumo”, explica Maurício Lima Verde.

Um dos mais comentados no meio científico é a proteção contra a cirrose hepática (doença que causa dano progressivo às funções do fígado) e à diminuição dos riscos de surgimento de câncer colo-retal.

Em relação especificamente a esta última, estudo feito no Canadá revelou que o risco diminuía quando se aumentava o consumo para cinco xícaras diárias da bebida, especialmente entre os homens.

Safra

Com 2 bilhões de hectares (cada hectare equivale a 10 mil metros quadrados), o Brasil é o maior produtor de café do mundo (em segundo está o Vietnã e depois a Colômbia). Segundo Maurício Lima Verde, essa área está espalhada por cerca de 30 mil propriedades cafeeiras, sendo que 70% delas são pequenas, com aproximadamente 50 hectares.

A produção anual no país é em média 42 milhões de sacas, o que corresponde a mais de 30% da produção mundial, que é de 128 milhões. A safra desse ano está dentro desses padrões nacionais.

“Nossa expectativa é de que a safra de agora, a 2010/2011, seja média. Esperamos 43 milhões de sacas. No ano passado, a safra foi uma das maiores da história, mas o café é assim: tem oscilações grandes de um ano para outro”, explica.

Esse ano, a expectativa era de que a safra fosse pior, porém, o clima ajudou bastante. “As chuvas ocorreram no começo do ano exatamente como precisa ser. O ideal é que as precipitações sejam poucas agora durante a colheita, de maio a setembro, para que o cafezal ‘descanse’ da produção”, conclui Lima Verde.

Consumo

O grande consumo, que poderia ser visto como um dos principais responsáveis para a provável escassez do produto, é, ao contrário, analisdo por Maurício Lima Verde como positivo ao ingresso nesse “novo perfil”.

“O consumo aumenta em média 4% anualmente. Isso se deve ao aumento de renda da população. Do mesmo jeito que comprou mais coisas, como eletrodomésticos, passou a comprar mais café. Isso dá a garantia de mercado. Sempre vai haver o público consumidor, que cresce a cada dia”, informa.

Tal garantia também concede mais “conforto” às agências bancárias, uma vez que podem liberar mais créditos aos agricultores sem haver grandes riscos.

Para se ter uma ideia, o Brasil é o segundo maior consumidor de café do mundo (o primeiro é os Estados Unidos), com a utilização de 18 milhões de sacas anuais. O consumo mundial no ano passado registrou média histórica de 4,8 quilos - ou 81 litros – de café por pessoa.

Especificamente em relação à falta do produto projetada para daqui a quatro anos, Lima Verde explica que isso não ocorrerá no Brasil. “A maior parte do que produzimos hoje, nós exportamos. O que vai acontecer é que deixaremos de exportar mais e usaremos para suprir as necessidades do próprio mercado interno”, completa.

Preço do produto deve subir

Mesmo com o panorama otimista que o “novo perfil” cafeeiro traça ao futuro do setor, o valor de venda do café à população deve ser modificado. Mesmo sem qualquer previsão oficial, nesses próximos anos é provável que os consumidores verifiquem a elevação nos preços.

Entretanto, segundo Maurício Lima Verde, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) e representante dos produtores brasileiros do setor privado na Organização Internacional do Café (OIC), esse aumento será leve.

“Todo o problema relacionado à matéria prima, que é o cafezal, é muito relativo em relação ao preço que o consumidor paga. Isso ocorre porque do preço total que o café é vendido em um supermercado, por exemplo, somente 20% é da matéria prima”.

Desse modo, a estimativa é de que qualquer alteração no preço de venda do produto aos consumidores não ultrapasse essa média de 20%. “Os 80% restantes são de diversos outros processos, como custos com embalagem, publicidade, especulação, torrefação, entre outros fatores”.

Atualmente, na região, o café mais barato comercializado em estabelecimentos nas rodovias custa cerca de R$ 1,00. Se essa projeção em relação somente à matéria prima for levada em conta, o preço subirá para R$ 1,20.

Já na cidade, aqueles consumidos em lojas e supermercados podem passar de R$1,50 para R$ 1,80 e os de cafeteria, que atualmente custam em média R$ 2,50, chegariam a R$ 3,00. 

 

Veja tambÉm: