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Melles: “produtor está com a corda no pescoço e irresponsáveis dizem que o ano foi bom para o café”

 

postado em 27/12/2010 | Há 6 anos

Deputado federal Carlos Melles, faz uma análise do setor cafeeiro nos oito anos do governo Lula e questionou aqueles que apontam o ano de 2010 como um dos melhores para a cafeicultura.Para o deputado, o café foi “esquecido” nesse período e que é necessário um diagnóstico profundo do setor para que não haja distorções de notícias. “Esse momento para o café merece uma análise com muita profundidade e sobre vários aspectos, entre eles a sustentabilidade econômica do produtor de café, o que aconteceu na área social da cafeicultura e no ambiental, nesses oito anos de governo do presidente Lula”, ponderou ele.Segundo o presidente da Frente Parlamentar do Café, “em primeiro lugar, no aspecto ambiental, foi nesse governo que houve um decreto que quase proibiu a cafeicultura brasileira no sul de Minas, na Zona da Mata e no Espírito Santo, que considerava que onde existia declividade de 45 graus não poderia ter café. Isso é um desconhecimento total de mais de 300 anos da história da cafeicultura no Brasil, que é o maior produtor do mundo”, disse o parlamentar e que “houve empobrecimento do trabalhador e do produtor nesses últimos anos, a partir de 2001”.O deputado explicou que isso foi agravado nesses oito anos “porque o custo de produção foi maior do que o preço de venda. O crescimento real do salário mínimo, do adubo, do calcário, do óleo diesel, ou seja, dos fatores de produção, foi na ordem de 700%, da criação do Plano Real para cá, e o café subiu apenas 31% no mesmo período”, comparou.O deputado reforça que o preço do café “está subindo de forma explosiva neste fim de 2010, mas que o produtor não tem café e teve prejuízo nos últimos dez anos, portanto não está se beneficiando dessa alta. A alta é pela escassez determinada pelo governo que errou na política cafeeira. E não errou só para o café, mas também com vários outros produtos”, disse.

A verdade

O deputado federal Carlos Melles diz que nem tudo o que algumas lideranças ou pessoas de alguma forma ligada ao setor publicam na imprensa pode ser entendido como verdade absoluta, se referindo àqueles que acreditam que a alta dos preços do café neste fim de ano trouxe tranquilidade para produtores.

Para ele, “é preciso fazer esta análise porque algumas lideranças não têm a visão completa e isso é falta de responsabilidade. Acredito que o verdadeiro líder tem que conhecer e ter responsabilidade sobre o que está falando. Vi líderes que quebraram, que tiveram que vender propriedades, que disseram ter uma produtividade de 60 sacas por hectare, o que é mentira. Ouvi ministros dizerem que o café estava muito bem, enquanto não estava. Vi setores isolados que não têm a vida ‘no chão e no pé do produtor’ fazerem comentários que são perigosos; porque para o governo mais vale uma mentira que dez verdades e quando se fala que o endividamento é concentrado, esquece-se de que é concentrado em quem produz. O resultado é que os últimos anos foram muito ruins para o café”, esclarece.

E questiona: “Quando dizem que acreditam que este foi um ano bom para o café, não se perguntam: Ganhou-se dinheiro, a sua safra foi boa? E o passado de endividamento? O Funcafé tem um endividamento do setor de R$ 8 bilhões. Como pode estar bem um setor que tem uma dívida dessa? Acho que os que estão fazendo uma análise de um ano bom para o café estão com uma visão muito curta, pois foram meses bons para o café. Esqueceram-se do passado”.

Carlos Melles disse ainda que “comento com muito respeito sobre o governo Lula porque o Brasil o aprova em 82%. Mas ele deveria lembrar que era um metalúrgico que veio da indústria do automóvel, que cresceu graças ao café. Aliás, a industrialização do país só aconteceu por causa da força e da economia do café, que ficou esquecido”, disse.

Realidade

Para o deputado o problema consiste principalmente na ausência de uma política regulatória para o café. “O Brasil é o segundo maior consumidor de café, o maior produtor e o maior exportador. Mas não tem preço mínimo de garantia compatível. O preço do café explode e o governo não revê o preço mínimo para dar sustentação, o estoque regulador não existe e o crédito também não”, relaciona o parlamentar.

Carlos Melles explica que “de R$ 100 bilhões para financiamentos, só R$ 41 bilhões foram utilizados. Não é que o produtor não precise, é que ele não tem credito. O produtor não é bom cliente, é classificado pelos bancos como cliente de altíssimo risco e cliente assim não é bom para ninguém. Paga juros mais altos, paga preço absurdo pelo seu risco e tira a competitividade do setor”.

O presidente da Frente Parlamentar do Café compara: “O subsídio para o agricultor no mundo nunca esteve tão alto desde a Segunda Guerra Mundial, mais de R$ 500 bilhões, mais de R$ 1 bilhão por dia, e isso demonstra que o setor não está bem”.

Em relação à produção e à política brasileira do café, o deputado também diz que “é preciso fazer análise econômica de produção, produtividade custo, estoque regulador e exportação. O mundo paga altíssimo pela transferência de estoques e os preços internos caem demais”.

Esperança

Já em relação ao futuro, Carlos Melles disse que houve um comprometimento por parte dos políticos eleitos, tanto no governo estadual, como no federal. “Temos esperança porque a ex-ministra e agora presidente eleita Dilma Russef disse em setembro deste ano, e há gravações e publicações disso, em Varginha, que é o coração do café, que iria resolver esses problemas em dois meses. Até agora não se resolveu e as dívidas se acumulam. O preço subiu, mas o produtor não tem café”.

Melles também reafirmou que o governo estadual irá auxiliar o setor. “Para Minas Gerais, felizmente, o governador Antonio Anastasia vai ajudar o governo federal a tomar decisões e o ministro Wagner Rossi vai trazer novas propostas, mas eu temo que algumas já estão tardias, é como um tecido que esgarçou e não se recupera mais”.

Perguntado pelo Coffee Break se Aécio Neves no Senado pode alavancar ainda mais medidas positivas para o café no próximo ano, Carlos Melles disse que certamente será um apoio precioso, mas ponderou que “todos tem que estar juntos, não existe nada de novo. É preciso ter vontade e decisão política novas, o que não existiu no passado recente. Se houver isso, vão ouvir o que o SOS Café pediu, o que consta da “carta de Varginha”, que foi democraticamente discutido e apresentado. Qualquer líder que pedir algo fora disso está fora da realidade. São reivindicações formuladas em duas audiências públicas em Brasília e no encontro de 25 mil produtores em Varginha”, lembra o deputado.

Medidas

O presidente da Frente Parlamentar do Café lembrou as medidas que há anos o setor formulou, concretizando as reivindicações no movimento SOS Café, que teve início com uma audiência pública em Brasília, em dezembro de 2008, o encontro histórico em março do ano seguinte em Varginha e por último, em junho de 2009, com outra audiência pública em Brasília.

O parlamentar explica essas medidas:

- “Auditoria no endividamento. É preciso que o governo saiba se esse endividamento é culpa do produtor ou falta de política governamental. O governo não quer fazer a checagem de contas porque vai ver que a culpa é dele, pois se não fosse, não teria feito a prorrogação de dívida. Fez o capital de giro, mas não fez a renda e colocou o produtor em situação mais difícil. O patrimônio do produtor ainda vale mais do que a dívida, assim o governo vai colocando a corda no pescoço dele e os agentes financeiros estão confortáveis. Isso é falta de sensatez”, disse.

Carlos Melles relaciona a liberação de crédito como outro aspecto importante para a sobrevivência do produtor.

- “Tem que dar irrigação de crédito para melhorar o trato na lavoura e crédito suplementar para melhorar a produtividade e garantir a safra do ano que vem. Fazer no mercado futuro para que vendas dêem lucro.

- Transformar a dívida financeira em dívida comercial, em produto, com pagamento em 20 anos porque esse é o período de vida do café”.

Para o deputado “o que o governo precisa fazer agora é uma política do café para os próximos anos e que o produtor recupere a renda. E renda não é faturamento. Renda é o que sobrou de lucro de um negócio. O produtor brasileiro é o mais eficiente do mundo, a ineficiência é da política pública do governo brasileiro, que não tem política regulatória como no resto do mundo”.

Notícias e fatos

O deputado federal Carlos Melles também fez considerações sobre a força que o setor já poderia ter diante do mercado, caso estivesse se organizado ao longo dos anos e tivesse o apoio do governo federal. Por exemplo, para o deputado, “tivemos a notícia do negócio realizado pela empresa Sara Lee que comprou a marca Café Damasco e fechou a indústria, dispensando os funcionários. Há ainda a notícia do grupo JBS, que é brasileiro com capital da sociedade, com a intenção de adquirir a Sara Lee. Então, perguntamos por que o setor, produtores, cooperativas, organizações, sindicatos e governos já não fizeram isso? Seria uma oportunidade do setor produtor se aproximar do setor consumidor, agregando valor, e não de terceiros fazendo isso. Não se organizou, não se aproximou dos consumidores. Isso já poderia ter acontecido na crise de 2008, por exemplo, comprando a Starbucks, que tem 12 mil lojas. Seria uma maneira dos setores se aproximarem”, exemplifica ele.

Carlos Melles diz que o cenário de toda a cadeia do café se encontra em situação difícil. “O setor exportador e torrefador mudaram o perfil em 80% e o torrefador está desnacionalizado, o solúvel não quebrou por descuido, o setor produtor está endividado. Quanto mais perto do café menos dinheiro tem, como o trabalhador e o produtor. Os mais espertos dizem que exportam muito, mas há escassez. O aumento de preço aconteceu agora por falta de política, por falta de estoques reguladores no mundo, que o governo brasileiro não fez”, pondera.

O presidente da Frente Parlamentar do Café, deputado federal Carlos Melles, finalizou dizendo que “o consumo de café vai aumentar cada vez mais, as exportações vão aumentar, ninguém vai parar de produzir café, pois hoje é um produto fashion e bom para a saúde. Ninguém vai superar o Brasil na produção, quem pensa o contrário está enganado, pois ninguém produz como no Brasil, não tem a área, o potencial e a capacidade brasileiras”.

 

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