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CAFÉ – “INDEPENDÊNCIA OU MORTE” Por Armando Matielli Sincal

 

postado em 28/07/2010 | Há 7 anos

Terça, 27 Julho 2010

O Mercado Brasileiro de Café vem se comportando nos últimos anos, com extremo amadorismo, deixando vazar pelo ralo da incompetência dezenas de bilhões de dólares (US$), por ineficiência comercial e total ausência de gestão, correndo numa libertinagem sem precedentes e, o Brasil detentor de 50% do Mercado Mundial de Café Arábica vem conseguindo a “proeza” de vender nosso café com deságio de aproximadamente 43% em relação aos cafés lavados, seguindo a bolsa de Nova York (NYBOT), que representa quase que exclusivamente os cafés lavados de 19 países compostos por: Colômbia, Guatemala, Costa Rica, El Salvador, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Venezuela, Peru, Equador, Republica Dominicana, Índia, Burundi, Ruanda, Uganda, Tanzânia, Papua Nova Guiné, Quênia.

Desses 19 países que produziram em 2009, 38,8 milhões de sacas em média, produziu 38/40 milhões de sacas nos últimos 6 anos (Fonte: CECAFÉ).

A Colômbia é o principal produtor com 11,0 milhões de sacas em média no período citado, e o grupo dos países da America Central e México, que operam com uma política de preço e gestão praticamente em conjunto, produzem 18 milhões de sacas, Peru com 3,5 milhões de sacas e Índia com 2,0 milhões de sacas. Os demais países são produtores residuais. Esse demonstrativo desmistifica que existem muitos países produtores e grande concorrência mundial. Isso é pura balela, argumento sem fundamento, usado com o intuito de atemorizar o cafeicultor brasileiro que geralmente desconhecem as estatísticas.

Baseado no exposto, o Brasil com 50% do Mercado Mundial de Arábica NATURAL, não pode mais aceitar ser prejudicado pela Bolsa de Nova York, que não representa o nosso café. O contrato “C” (Colombiano), está sendo comercializado em média por US$ 2,00 / libra peso, base de Nova York, isso corresponde à US$ 265,00 / saca, ou seja, R$ 490,00 / saca e os demais lavados seguem o contrato “C”, da Bolsa de Nova York (NYBOT). Enquanto isso, o Brasil vem vendendo à US$ 1,35 / libra peso, e dando um desconto de 20 cents de US$ / libra peso, chegando a US$ 152,00, ou seja, R$ 281,00 / saca. Vendendo 43% mais barato que a concorrência. Não dá para entender essa nossa incompetência, pois temos um produto de excelente qualidade com características totalmente distintas, com 50% do mercado e conseguir essa estupidez comercial.

Para contrato que é “C” (lavados), a US$ 2,00/ libra peso, porque vendemos a US$ 1,15?

Senhores analistas de mercado e a cafeicultura de modo geral, que ficam fazendo análises e análises fúteis e não chegam ao problema crucial. Não conseguimos entender essa nossa visão caótica e inculta. Precisamos sair da Bolsa de Nova York (NYBOT) e abrir um contrato de café NATURAL Brasileiro em outra Bolsa como a CME (Chicago Mercantile Exchange) e abandonar essa traição e incoerência que está provocando pobreza nos municípios produtores de café, baixando nosso IDH e essa “sabotagem” da Bolsa de Nova York, está extirpando, evadindo divisas, provocando o DUMPING e prejudicando a nossa pátria com prejuízos de bilhões e bilhões de dólares.

Com isso nosso cafeicultor vem se endividando, tratando mal de seus familiares, impedindo melhores salários aos nossos trabalhadores rurais. Estamos exportando dívidas, hipotecas, execuções judiciais e acima de tudo a dignidade do cafeicultor brasileiro.

Essa retórica imposta pelo mercado, que café lavado é superior ao nosso café NATURAL, não é verdadeira. Esse argumento somente serve para denegrir o nosso café. Não podemos concordar com isso. Analisando os aspectos econômicos e de sustentabilidade do café NATURAL Brasileiro versus os cafés lavados, temos o seguinte:

1 – CAFÉ LAVADO

a)      SOCIAL – Os trabalhadores rurais dos países produtores dos cafés lavados sobrevivem sem dignidade, pois a colheita seletiva e com diversas passagens na lavoura, impede a remuneração condizente e não podem ter aspirações de desenvolvimento social, permanecendo em estado de pobreza, eliminando parte do tripé da sustentabilidade, tanto em voga no mundo moderno.

b)      AMBIENTAL – O despolpamento tem por finalidade livrar o grão de café de seu invólucro exterior (epicarpo ou polpa) e de toda a mucilagem (mesocarpo). Mucilagem rica em açucares, enzimas e compostos diversos que com sua eliminação provocam efluentes extremamente poluidores ao ambiente. Além do que, utilizam fermentação anaeróbica. Portanto o café lavado é POLUIDOR.

c)      QUALIDADE – No processo do despolpamento pela desmucilagem, retiram-se os açucares, enzimas e outros compostos, conferindo ao café lavado prejuízos na qualidade organoléptica, pois, após alguns meses o café lavado tende ao branqueamento, perdendo seu valor comercial e passa ser rejeitado pelo mercado. Porque é rejeitado? Só pelo branqueamento? È lógico que não!!!!! pois perderam-se os valores organolépticos.

d)      ECONÔMICO – O café lavado impede a estocagem por longos períodos como o café NATURAL Brasileiro, portanto a logística dos lavados é extremamente complicada. Precisam produzir e vender rapidamente “da mão para a boca”.


2- CAFÉ NATURAL BRASILEIRO

a)      SOCIAL – O Brasil com o atual processo de produção de café consegue repassar aos trabalhadores rurais aspirações econômicas com renda condizente, dando dignidade e sustentabilidade social. Nossa colheita por derriça é muito mais rentável ao trabalhador e, o Brasil possui um aparato tecnológico moderníssimo no processo de colheita e separação dos grãos, conferindo um café de excelente qualidade.

b)      AMBIENTAL – Nosso café é NATURAL. A palavra NATURAL é praticamente universal, facilitando os argumentos de marketing. NATURAL, pois nosso café não utiliza o despolpamento e fermentação anaeróbica e não precisamos utilizar quantidades volumosas de água como o café lavado. Como o mundo está preocupado com a água doce, estamos colaborando ambientalmente na produção de café NATURAL. Nossos cafés secos com a presença a luz e do sol, tanto seco na planta, como nos terreiros de secagem mantém a mucilagem rica em diversos composto que penetram através do pergaminho, que envolucra o grão, conferindo a transferência de diversos compostos, dando ao nosso café NATURAL uma qualidade organoléptica perfeita e permitindo a armazenagem por anos à fio.

c)      QUALIDADE – Preservando as qualidades organolépticas pelo processo de produção NATURAL, conferindo aos nossos cafés que são cultivados em distintas regiões, numa extensão quase que continental, nas mais distintas condições edafo-ecológicas e climáticas dando-nos a mais rica diversidade de cafés, somente conferido ao Brasil, como o principal produtor mundial. A quantidade de cafés lavados do mundo todo nos da a proporção do Fifty – Fifty (meio a meio), conferindo a nossa participação de 50% no café Arábica.

d)      ECONÔMICO - Podemos estocar nossos cafés por longos períodos dando a possibilidade de regular o FLUXO de café, economicamente falando, na relação da oferta e da demanda, o FLUXO é o regulador do preço. Mas, nós fazemos uma logística tupiniquim e não aproveitamos essa nossa grande vantagem. Vamos regular o FLUXO e ganhar dinheiro. “Vamos vender por opinião e não por precisão” frase tão conhecida do Sr. Luiz Marcos Suplicy Hafers, um dos baluartes da cafeicultura brasileira. Temos a “faca e o queijo na mão” e não estamos aproveitando essas nossas fortalezas que poderemos transformá-las em ameaças aos concorrentes que não podem regular o FLUXO dado a perecividade do café lavado. Esse FLUXO poderá ser perfeitamente financiado por um funding permitindo aos diferentes elos do agronegócio café como os exportadores, cooperativas, indústria e mesmo aos produtores. Como estamos perdendo bilhões de dólares na exportação de café e este ano deveremos exportar 26 a 28 milhões de sacas de café arábica NATURAL com um prejuízo de R$ 200,00 por saca, como já exposto anteriormente e, com 10% a 20% do valor da recuperação da receita que estamos doando ao mercado internacional (fazendo benemerência) poderemos com esse percentual fazer o funding e regularmos o FLUXO que se faz tão necessário. Questão de inteligência e estratégia.

Vamos criar o contrato NB (NATURAL BRASILEIRO) sair de Nova York (NYBOT), dar independência econômica ao nosso café. Vamos para outras bolsas que precisam ampliar os negócios como CME (CBOT). Não é sonho de verão, é real. Teremos apoio para isso. O mundo comercial é uma guerra e nós precisamos aproveitar as janelas que o mundo dos negócios nos oferece para ganhar dinheiro em todos os seguimentos do Agronegócio Café. Vamos partir para a “INDEPENDÊNCIA OU MORTE” da cafeicultura Brasileira.

A SINCAL vem trabalhando intensamente nos diversos segmentos da cadeia cafeeira e nas políticas centrais para libertarmos os cafeicultores dessa servidão econômica.


“Abaixo a escravidão e viva a independência”.



Armando Matielli

Engenheiro Agrônomo com MBA em Agribusiness pela FGV

Cafeicultor em Guapé/ Sul de Minas Gerais

Presidente Executivo da SINCAL

 

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