24/08/2011
Não é sem motivo que a fachada da agência do Banco do Brasil no centro de Santos é revestida com um painel com desenhos de GRÃOS de café. A cidade desenvolveu-se em razão da comercialização e do embarque do produto no século XIX, possibilitando a criação de uma inédita classe média.
Até o início do ciclo do café, o porto de Santos tinha pouca importância econômica. De acordo com o livro “O Grande Porto”, de Alcindo Gonçalves e Luiz Antonio de Paula Nunes, tratava-se de um modesto entreposto que se beneficiava de ser “porto estanque de sal”, em razão do monopólio do produto estabelecido pela Coroa portuguesa entre 1631 e 1801. “Esse porto moderno surgiu através do café. E o importante para a cidade foi a criação do que eu chamo do complexo cafeeiro. Esse conjunto de atividades comerciais ligadas à exportação e comercialização do café, que pode ser resumido na figura dos comissários, corretores, exportadores, armazéns gerais, sistema financeiro bancário”, afirma Gonçalves.
Naquela época, o café produzido no interior do Estado descia para Santos para ser re-beneficiado e preparado para o embarque nos navios. Cerca de 3 milhões a 4 milhões de sacas de café chegaram a ficar nos armazéns gerais. Ali o produto era re-beneficiado e produzidos os blends. A estimativa é que existiam mais de 30 armazéns gerais – hoje os últimos dois que sobraram são ruínas históricas.
Havia ainda o aspecto financeiro. Quando o café chegava ao armazém, o exportador recebia um certificado da garantia da existência física do produto. Ia ao banco e descontava esse título (os chamados warrants).
Por isso a cidade concentrava praticamente todos os bancos internacionais. “A Rua XV era conhecida como a Wall Street brasileira. Todos os grandes exportadores de café do Brasil tinham escritório em Santos, todos as grandes torrefações também”, cita o diretor do escritório Carvalhaes e presidente do Conselho de Câmaras Setoriais da Associação Comercial de Santos (ACS), Eduardo Carvalhaes Jr.
“Em Santos, o centro histórico é do café. A cidade que havia antes era colonial. Tudo foi derrubado para dar espaço a novos prédios no século 19”, afirma Carvalhaes. Da época colonial, restam algumas edificações, como a igreja do Valongo e a Casa do Trem Bélico.
As melhorias nas comunicações e transporte mudaram tudo. Com o advento da estrada e o desenvolvimento tecnológico, não era mais necessário realizar as transações financeiras em Santos. Ao mesmo tempo, sobretudo após o crack da Bolsa, em 1929, a economia do país teve de se diversificar e o café perdeu importância.
Em 2010 o café foi o 11º principal produto da pauta de exportação brasileira. Respondeu por US$ 5,73 bilhões do total vendido ao exterior, participando com 2,9% do total embarcado. Hoje, Santos ainda embarca mais de 70% das exportações nacionais do café. (F.P.)