Solo vulcânico influencia nos aromas e nos sabores dos grãos especiais
Por Globo Rural
Ilma Rosa Franco, dona do Sítio Terra Nova, em Campestre (MG), faz parte da quinta geração da família dedicada ao cultivo de café. Sua produção sempre se esgotou em poucos dias. Há sete anos, ela decidiu investir mais na cultura para obter status de café especial. Fez cursos de aperfeiçoamento, mudou a forma de beneficiar o grão e passou a vender lotes de café especial, com a marca Café Rosa Franco. Hoje, no sítio de 14,5 hectares, ela produz 600 sacas de café por ano, das quais 120 são vendidas como café especial. Em 2022, venceu concurso organizado pela Prefeitura de Campestre, com seu café atingindo 88,65 pontos.
“O solo vulcânico dá um diferencial nos aromas e sabores do café”, afirma a produtora. Ela faz parte de um grupo de 12 mil produtores que cultivam cafés na Região Vulcânica — também chamada Complexo Alcalino de Poços de Caldas — e investem para agregar valor à produção. Atualmente, a região busca o selo de Indicação Geográfica concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi).
A Região Vulcânica fica sobre um vulcão extinto há 80 milhões de anos, de 40 quilômetros de diâmetro, e compreende oito municípios mineiros — Andradas, Bandeira do Sul, Botelhos, Cabo Verde, Caldas, Campestre, Ibitiúra de Minas e Poços de Caldas — e quatro paulistas — Águas da Prata, Caconde, Divinolândia e São Sebastião da Grama.
A área ocupada com cafezais soma 65,9 mil hectares, onde são produzidas 1,6 milhão de sacas de café por ano, diz Marco Antônio Sanches, presidente da Associação dos Cafés da Região Vulcânica. Na região, existem mais de 100 marcas de cafés, que chegam a ser vendidos por até o dobro do preço do café convencional, por causa das suas características diferenciadas.
“Em 2024, cresceu três vezes a demanda por café com selo de origem, o que nos estimula a buscar a indicação geográfica para agregar mais valor”, diz Sanches.
A marca coletiva Cafés da Região Vulcânica foi criada em 2021, junto com o Sebrae Minas. Rogério Galuppo, analista do Sebrae Minas, afirma que o próximo passo é obter a indicação geográfica. “É uma estratégia interessante para promover a região com base em seus diferenciais e, assim, ter uma abertura mais interessante para o mercado consumidor”, diz.
Além do solo, a altitude e o clima da região influenciam as características do café, diz Leonardo Custódio, Q-Grader (profissional que avalia a qualidade dos grãos).
“Os dias são muito quentes e as madrugadas são frias, a altitude é de 700 a 1,3 mil metros acima do nível do mar, e chove bem, 1,7 mil milímetros por ano. Com isso, a maturação do café é mais lenta, deixando o café com maior concentração de açúcar e uma cadeia de ácidos maior. Isso dá um toque mais frutado à bebida”, afirma. Ele acrescenta que o solo vulcânico, por ser mais rico em minerais, confere aos cafés sabor e aroma de frutas amarelas, caramelo e chocolate, acidez cítrica e corpo alto.
Ilma Rosa Franco produz as variedades mundo novo, catuaí amarelo e vermelho, catucaí, topázio e paraíso. Em sua produção de café especial, os grãos colhidos secam ao sol, em área suspensa, por 20 a 21 dias, até atingir 16% de umidade. Depois o café “descansa” por 20 dias e volta para o terreiro para secar até atingir 11,5% de umidade. Essa etapa leva de dez a 15 dias.
A produção é vendida para todo o Brasil e já foi exportada para EUA e Japão. Para 2025, a cafeicultora estima uma produção de 600 sacas, das quais 120 a 140 sacas serão de café especial.
Affonso Junqueira de Souza e Silva, gerente geral da Fazenda Matão, em Poços de Caldas (MG), é outro produtor da região vulcânica que investe na melhoria dos seus cafés. O cultivo começou com seu bisavô, José Affonso Junqueira. Nos últimos dois anos, ele renovou 40% da lavoura, de 484 hectares, onde tem 100 mil pés de café.
“Havia pés de quase 50 anos. Compramos mudas de viveiro certificado”, conta Souza. Na fazenda, ele cultiva as variedades mundo novo, icatu, catuaí, arara e bourbon amarelo.
Até poucos anos, ele vendia o café a uma cooperativa da região. Mas em 2022, depois de vencer alguns concursos regionais de cafés, resolveu lançar a marca própria, Peneira 16. O nome é uma referência à classificação dos cafés, feita em peneiras de tamanhos 13 a 22. Os especiais devem ficar acima da peneira 16.
Hoje, Silva exporta 60% da produção para países como Estados Unidos, Japão, China e da União Europeia. O restante é vendido para empórios, supermercados e pequenas torrefadoras. Para 2025, a previsão é colher em torno de 1,2 mil sacas, volume estável em relação à safra passada.
O café mais premiado do mundo também é cultivado no solo vulcânico. A Orfeu Cafés foi uma das primeiras a estudar o comportamento de variedades de café na região vulcânica. A empresa trabalha com pouco mais de 30 variedades em suas fazendas.
Alexandre Marchetti, Q-Grader e agrônomo responsável pela Fazenda Rainha, do complexo Sertãozinho de Orfeu, diz que as variedades geisha e arara são as que melhor se adaptam à região. “A composição natural de seus frutos associada ao solo vulcânico geram um resultado muito diferenciado, salientando a complexidade e a doçura das bebidas”.
A Orfeu Cafés usa o processo de cereja natural, no qual grãos selecionados ficam por mais tempo expostos, com casca, polpa e mucilagem, resultando em uma bebida mais doce e encorpada.
Segundo Marchetti, fatores como variedade, altitude e solo da região vulcânica fazem com que esses cafés atinjam a excelência e conquistem uma série de premiações. A mais recente foi no Cup Of Excellence 2023, considerado o “Oscar” dos cafés, no qual o geisha da Orfeu foi o grão vencedor do ano, avaliado em 91,38 pontos.
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