SISTEMA DE INTELIGÊNCIA DA CONCORRÊNCIA
FIGURA 3 – Ilha de Sumatra
Fonte: Google Maps
A região central da ilha de Java cultiva o Robusta, enquanto que a região leste da ilha concentra o cultivo de Arábica. Em geral, o café Arábica ocupa áreas elevadas de montanha, enquanto que o Robusta é cultivado em baixas altitudes.
Outras regiões cafeeiras são: Ilha de Flores (Arábica), Ilha de Bali (Arábica), Ilha de Timor – oeste (Arábica), Ilha de Sulawesi (Arábica) e Ilha de Borneo e Kalimantan (Arábica).
FIGURA 4 – Regiões cafeeiras da Indonésia
Fonte: CIC e USDA
2 – PRODUÇÃO
A Indonésia é o quarto maior produtor de café do mundo, com estimativa total de produção de 6,65 milhões de sacas de 60 kg para o ano de 2008, sendo que deste total, serão 5,85 milhões de sacas de Robusta e 800 mil sacas de Arábica (USDA). O valor total representa uma redução de 1% em relação às 6,67 milhões de sacas estimadas em 2007.
GRÁFICO 1 – Produção de café na Indonésia nos últimos 10 anos
Fonte: CIC e USDA
Na década de 1980 o país se tornou o maior produtor de café Robusta do mundo, ultrapassando a Costa do Marfim, porém, perdeu a liderança para o Vietnã na década de 90. Desde então a produção de café Robusta mantêm-se estável ao redor de 6 milhões de sacas anuais. As variações de produção decorrentes estão relacionadas ao preço do produto no mercado mundial, que impacta diretamente nos tratos culturais dispensados pelos cafeicultores, e às estiagens, que afetam as regiões que não possuem sistema de irrigação.
O cultivo de café na Indonésia é extremamente dependente de mão-de-obra intensiva, pois o café é normalmente cultivado em terrenos com declive. De acordo com o USDA, a média de produtividade é de 13 sacas/ha, sendo que grandes cultivos alcançam um média de 15 sacas/ha e pequenos produtores 11 sacas/ha. A Indonésia possui a segunda maior área cultivada com café no mundo, com diversas fontes apontando para 1,2 a 1,3 milhões de ha[1].
Porém, se dividirmos a produção total pela área chegaremos a ínfima produtividade de 6 sacas/ha. O fato é que devem existir diversas áreas de café sob floresta abandonadas no país, conseqüência das diversas crises econômicas e da concorrência com outros produtos como cacau e óleo de palma.
O café Arábica produzido nas diversas regiões da Indonésia tem ganhado cada vez mais espaço no mercado de cafés especiais mundo afora. Especialmente os cafés produzidos na região norte da ilha de Sumatra, como o Arábica Mandheling, muito procurado por seu suave sabor. Os cafés indonésios são diferenciados por uma série de razões, entre as mais importantes estão o tipo de solo, altitude, variedades, método de processamento e idade. Esta combinação de fatores naturais presente no microclima de cada ilha ou região, aliada a fatores humanos criam um “terroir” específico que caracteriza cada café. Veja alguns exemplos abaixo:
Cafés Arábicas na Indonésia | |
Tipo | Região / Ilha |
Gayo | Aceh, Sumatra Setentrional |
Mandheling | Norte de Sumatra |
Java | Leste de Java |
Bali | Kintamani, Bali |
Toraja | Sulawesi |
É na Indonésia também que encontramos o famoso café do “Luwak” ou “Kopi Luwak” como é conhecido. O Luwak é um mamífero, da família civeta (Paradoxurus hermaphroditus), parecido com um gambá brasileiro, que durante a noite percorre as plantações de café em busca de cerejas maduras para se alimentar. No estômago do animal, o café passa por um processo de digestão enzimática que retira sua mucilagem. Os humanos então recolhem suas fezes e o café é limpo e processado. No mercado internacional, o quilo deste produto pode alcançar facilmente mais de US$ 1200,00, já que ao ano estima-se uma produção de apenas 230 quilos.
A área cultivada com café vem sofrendo forte competição de outras culturas como a palma e o cacau. Os agricultores estão sendo incentivados pelo governo a plantar cacau através de um programa de revitalização da cultura. É comum também encontrar áreas onde o café divide espaço com seringueiras, palmas, cacaueiros e outros produtos, sendo que os agricultores escolhem investir na cultura mais rentável de acordo com os preços internacionais.
O tipo de processamento de café é variado, e depende dos costumes e espécie cultivada. Há predominância quase total do sistema natural para os robustas embora na maioria das ilhas seja possível encontrar Arábicas lavados, muitas vezes processados por maquinário antigo. O processamento ainda é um gargalo para a melhoria da qualidade dos cafés do país.
De maneira geral, a produção e a qualidade do café indonésio são limitadas devido a diversas práticas comuns utilizadas pelos agricultores:
Métodos ultrapassados de processamento e secagem ainda são utilizados, o que prejudica a qualidade e uniformidade dos lotes.
3 – DISPONIBILIDADE DE CAFÉ
As exportações totais para o ano de 2008 estão estimadas em 4,64 milhões de sacas, um pouco abaixo do volume de 4,71 milhões de sacas alcançado em 2007. Um declínio de 8% em relação ao total alcançado em 2006 de 5,07 milhões de sacas (USDA).
Os principais países compradores de café Robusta foram Japão (22,5%), Alemanha (15%), Itália (7,2%) e EUA (7%). Na safra 2007/2008, os maiores mercados de café Arábica da Indonésia foram os EUA (48%), Alemanha (15%), Cingapura e Japão (11% cada), e Itália (9%).
A Associação dos Exportadores de Café da Indonésia (AEKI) estima uma redução no valor das exportações, inicialmente previstas em US$ 575 milhões e agora revisadas para US$ 400 milhões. Isto se deve aos impactos da crise financeira global nos preço internacionais do café Robusta, que no início do ano chegaram a atingir US$ 2.400,00 a tonelada e hoje se encontram na faixa de US$ 1800,00 a 1.900,00 a tonelada.
Existe uma previsão de aumento do consumo de café de 4% em 2008, totalizando 2,43 milhões de sacas em todas as formas de preparo. Porém, o consumo per capita ainda é baixo, de apenas 0,6 kg/habitante/ano, mas vem aumentando nos últimos anos devido à conscientização sobre o produto café permitido pelo crescente número de lojas de café no país e o consumo de produtos inovadores de solúvel pelos jovens. As cafeterias oferecem uma boa oportunidade para os habitantes de socializarem, não importando sua cultura ou religião. As franquias nacionais e internacionais estão se expandindo rapidamente, tendo como ponto central a região metropolitana da capital Jakarta. O consumo de solúvel cresce mais que o de torrado e moído.
Principalmente nas zonas rurais, o café é consumido com milho ou arroz, o que criou uma bebida com um sabor de café mais suave se comparado ao consumo tradicional de outros países. Por outro lado, os mais jovens preferem café solúvel em sachês, com açúcar e creme artificial que deve ser misturado com água, conhecido como 3 em 1. Novas preparações também estão chamando a atenção, como café com ginseng e cafés herbais.
Segundo a AEKI, as importações de café em 2006 foram de 170 mil sacas de 60 kg, valor que dobrou em 2007, alcançando 334 mil sacas. Em 2008, estima-se que sejam importadas 400 mil sacas de café verde e 40 mil sacas de café torrado e moído (USDA). A maior parte das importações são de café Robusta do Vietnã, cafés de menor valor que são usados para produção de café solúvel para ser consumido localmente. Outra prática comum é importar cafés arábicas de outras origens para abastecer o mercado interno, o que inclui café Arábica do Brasil.
4 – AMEAÇAS E OPORTUNIDADES À CADEIA PRODUTIVA BRASILEIRA
Analisando a Indonésia como país produtor e concorrente do Brasil no cenário internacional, podemos dizer que sua cafeicultura não é uma ameaça no curto prazo. Poderia entretanto sê-lo a médio e longo prazo, principalmente como resultado da expansão da produtividade, que é ainda muito baixa. É importante ressaltar que o país é o segundo em área cultivada com café no mundo e incentivos governamentais, aliados a preços bons globalmente, podem alavancar a produção do país, pois a produtividade pode ser melhorada com o uso de tecnologia. O país possui tradição na produção de café Robusta e Arábica e existe espaço para expansão da área cultivada e para a renovação de plantios com árvores envelhecidas.
Hoje os incentivos governamentais favorecem o cultivo de palma e cacau, porém, isto pode mudar ao sabor do mercado internacional e de mudanças no governo. Vale lembrar que a recente queda no valor do barril de petróleo no mercado internacional, para perto dos US$ 50,00, funciona como um forte incentivo para os produtores de palma abandonarem seu cultivo e procurarem culturas mais rentáveis. Desse modo, existe espaço para que estas mudanças possam influenciar a produção cafeeira no médio e longo prazo.
Como no Vietnã, a produção de café Robusta é extremamente dependente de sistemas de irrigação e da disponibilidade de água, o que, excetuando-se grandes cultivos ao sul da ilha de Sumatra, não é realizado ou é realizado de maneira deficitária na grande maioria das pequenas propriedades.
O cultivo de café Arábica está se expandindo, aproveitando-se dos variados micro-climas presentes nas diversas ilhas que produzem café, o que tem chamado a atenção de provadores e compradores de cafés especiais ao redor do mundo. Esta recente expansão aumenta o interesse e os preços dos cafés Arábicas produzidos no país, uma demanda que pode continuar crescendo dependendo dos desdobramentos da atual crise financeira mundial.
A oportunidade para o Brasil seria intensificar a exportação de café Arábica para atender ao crescente mercado interno da Indonésia, já que grande parte do café Arábica produzido no país atinge o patamar de café especial, tendo como destino a exportação e não o mercado local.
A variedade de café conhecida como híbrido de Timor, originária da ilha de Timor, parte Indonésia e parte do atual Timor Leste foi introduzida no Brasil na década de 1960. Sua resistência à ferrugem foi utilizada em programas de melhoramento do café aqui no Brasil, o que resultou no surgimento de diversas cultivares resistentes à doença no país. Pesquisas recentes também comprovam o potencial destas cultivares derivadas do híbrido de Timor para a produção de cafés especiais no Brasil [2]. Desse modo, podemos concluir que o intercâmbio destas variedades de Arábica oriundas da Indonésia poderia beneficiar os programas de melhoramento no Brasil, já que, devido ao isolamento das ilhas, características especiais poderiam ser encontradas nestes cafés.
A cafeicultura na Indonésia é um gigante adormecido, que ainda enfrenta sérias dificuldades ligadas principalmente ao modelo de produção baseado em pequenos cultivos, a concorrência com culturas mais rentáveis para os agricultores e com as dificuldades logísticas encontrada em um arquipélago formado por mais de 17.000 ilhas.
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[1] O Vietnã por sua vez possui de 490 a 500 mil ha cultivados, produzindo 3 vezes mais.
[2] Informações da Embrapa Café, no artigo “Timor: Híbrido de café surpreende pela qualidade”, publicado no site Cafépoint em 27 de Novembro de 2008.
Fonte: Centro de Inteligência do Café – www.cicbr.org.br