Mercado

À PROCURA DE UM PORTO SEGURO Rodrigo Costa

 

postado em 24/04/2011 | Há 6 anos

A agência Standard & Poor’s (S&P) rebaixou para “negativa” a perspectiva da dívida dos Estados Unidos pela primeira vez na história – apenas a Moody’s fez o mesmo em 1996. Na prática o viés negativo indica uma chance em três dos títulos perderem o status máximo de classificação (“AAA”), no período de 2 anos. A medida serve de alerta para o partidos políticos americanos chegarem à um acordo com relação aos cortes de gastos do orçamento, e por este motivo animou alguns investidores – após o choque inicial, claro.

O índice do dólar encerrou a semana no menor nível desde agosto de 2008, nem tanto pela notícia ruim para a moeda estadunidense, mas principalmente em função da mesma continuar sendo utilizada como a principal financiadora do chamado “carry-trade”. A lógica é que os investidores tomam emprestado dólares a taxas de juros baixas, e aplicam o dinheiro em outras moedas (países) que pagam juros mais altos. Uma parte também é aplicada em outros ativos, como por exemplo as commodities.

O ouro tem se beneficiado disto batendo altas nominais consecutivas, assim como moedas como o real e ativos de risco tem recebido um fluxo de investimento para proteção de reserva de valor em um mundo que procura um “porto seguro” para suas poupanças.

Nesta conjuntura o índice de commodities deu outro salto para próximo das máximas do ano (e também desde 2008). Segundo um banco de investimentos a alocação de recursos em commodities atingiram em março o patamar de 412 bilhões de dólares, sendo que 7.1 bilhões estão nas agrícolas.

Com isto o café em Nova Iorque fez uma nova alta em 14 anos para a primeira posição, e em 34 anos para a segunda posição, algo que estava dentro do esperado. O nível de US$ 3 dólares por libra-peso estampou as telas de todos os contratos até Julho de 2012, e o movimento foi relativamente mais ordenado do que se imaginava. Vendas de origens como Brasil e América Central foram magras, e os especuladores e operadores que são guiados a operar segundo o que indica o gráfico, foram os destaques do lado da compra.

Por outro lado Londres, que negocia o robusta, demonstrou fraqueza, fazendo com que a arbitragem contra o “C” alargasse para incríveis US$ 246.04 por saca de 60 quilos. Em outras palavras: para comprar uma saca do arábica na ICE é preciso de 2.63 sacas do robusta da LIFFE!! Rumores circularam de que um grande operador desta arbitragem teve que liquidar uma posição perdedora, o que pode ter causado este maior alargamento.

Por falar do arábica da ICE, infelizmente em função da qualidade do café que hoje compõe os estoques certificados, a firmeza dos preços isoladamente não é refletida apropriadamente na estrutura. Com isso na entrada do período de notificação do contrato de maio o spread do Maio contra o Julho negociou a US$ 5.45 centavos de desconto, provocando interrogações para aqueles que não seguem o dia a dia da commodity. Digo isto porquê um mercado que é altista, e que tem escassez de produto no físico, normalmente sofre uma inversão da curva, ou seja os preços dos contratos de vencimentos mais curtos ficam acima dos vencimentos mais longos, e muito investidores (também) cruzam estas informações como parte das análises que ajudam a decidir a alocação de seus recursos. Para o “C” isto não está acontecendo pois os cafés finos que estão em falta, não serão entregues através da bolsa enquanto não forem usados os cafés velhos que fazem partes dos estoques certificados. Por este motivo os dif erenciais (basis) se movimentam muito pouco apesar das variações dos mercados futuros (market).

Na prática significa que o terminal está quase que com vida própria, e os agentes naturais (produtores, exportadores, importadores, e indústria) vendo o físico pouco movimentado acabam usando com muita parcimônia a bolsa, fazendo apenas o estritamente necessário (incluindo nisto a arbitragem entre BM&F e NY).

O fechamento da semana nos dá a impressão (tecnicamente falando) que podemos ver uma tomada de lucro no curto prazo. Porém vale lembrar que o enfraquecimento da moeda americana, assim como a falta de café disponível no mercado físico, e finalmente a busca de investidores por alternativas, poderão trazer um fluxo de dinheiro para o mercado, tornando factível a busca dos 318 centavos (de 1997).

Aos produtores vale a pena aproveitar para vender um pouco do café que normalmente carregam como reserva de valor, para então (se assim quiserem) segurarem o produto da safra-nova quando ela chegar.

Uma ótima semana e muito bons negócios para todos,

 
*Rodrigo Corrêa da Costa escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting

 

Veja tambÉm: