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O mar e a importação de café. Por Mara Freitas

 

postado em 30/05/2010 | Há 7 anos

Por Mara Luiza Gonçalves Freitas*

Já  faz algum tempo que li uma declaração de Aécio Neves, onde ele lastimava a ausência do litoral em Minas Gerais. De acordo com ele, “o mar chora por não banhar as terras mineiras”. Ante isso, milhares de mineiros todos os anos rumam às praias capixabas, fluminenses e paulistas, para aplacar esta dor de cotovelo imposta pela geopolítica. Nem tudo é perfeito, mas o pão-de-queijo é nosso...Êh, marzão...

Pois é, com esta dose de bom humor, gostaria de dissertar sobre um assunto que já é corrente nas minhas reflexões há alguns anos: a consolidação da plataforma industrial no Brasil. A constituição de um novo Grupo de Trabalho, formado no âmago da CAMEX – Câmara de Comércio Exterior, para mais uma vez consolidar estratégias para a competitividade industrial, me leva a crer que o mar está para Minas, assim como a importação de café para a cafeicultura brasileira. 

Embora o país tenha na última semana celebrado um marco importante, que foi a publicação da Instrução Normativa nº 16, de 24/05/2010, que trata do Regulamento Técnico do Café Torrado em Grão e para o Café Torrado e Moído, é preciso verificar que a inexistência de uma política industrial genuína para o setor cafeeiro, conduz à imposição de limites às possibilidades de agregação de valor ao café nacional e, por conseguinte, à competitividade internacional do produto brasileiro. O que existem são políticas agrícolas, onde a indústria de café é um mero coadjuvante da estratégia de agregação de renda ao produtor. Se a visão fosse distinta dessa realidade, a importação de café, após dezenas de estudos realizados mostrando a viabilidade e os impactos favoráveis para a economia do país, já teria saído da gaveta e se convertido em Lei.

Isso fica extremamente claro quando se pondera que os pontos de investimento do Estado, fica concentrado na promoção do consumo com ênfase no mercado interno, controle de qualidade do café, preço e financiamento da produção. A proteção à indústria de café, assim como a exportação de café industrializado não o é. Se fosse, os números das importações de torrado estrangeiro não estariam disparando e a importação de café, ainda que restrita aos membros da ALADI, da qual o Brasil faz parte, liberada.

E o Estado não está errado, porque constitucionalmente os interesses públicos devem se sobrepor aos interesses individuais. E o interesse aqui ao qual me refiro é ao interesse público do segmento cafeeiro que gera maior número de empregos e gera maior distribuição de renda.

Ante isso, como fica a tal criação da plataforma industrial?

Há  quatro anos estou trabalhando num modelo matemático que finalmente poderá ser facilitar a compreensão dos elementos que consolidam as bases para a contabilização da competitividade industrial do café. Mas dá para adiantar que o principal elemento a ser adotado é o incentivo a conversação das companhias torrefadoras e de solubilização mais rentáveis de capital nacional, em transnacionais. Explico minha posição numa única frase: café verde raramente sofre interposição de barreiras tarifária e a transnacionalização, é um recurso de redução de resistência a produtos em mercados consumidores estratégicos. Importação de café para o Brasil não é viável. Transnacionalização de companhias torrefadoras brasileiras sim.

Primeiramente, é preciso considerar que melhor do que ter o café brasileiro negociado na ICE Exchange, seria ter ações de companhias de café  brasileiras negociadas na ICE Exchange. Depois, melhor do que exportar café verde para transnacionais estrangeiras situadas em mercados consumidores estratégicos, é a exportação de café verde para transnacionais brasileiras situadas em mercados consumidores estratégicos.

Se o Brasil investisse numa política dessas, jamais voltaria a enfrentar painéis na OMC ou teria problemas em relação a barreiras tarifárias, que para o caso do industrializado, muitas vezes chega a ser exorbitante.

Muitos podem dizer que tal ação exportaria empregos. Considerando a tecnologia industrial de hoje, onde tudo se resolve num botão, eu diria que o número de empregos exportados seriam mínimos, perto do que o país pode ganhar em termos de remessas de divisas e presença brasileira no mercado mundial.

É por isso que Guarapari e Cabo Frio são as duas principais praias de Minas.


*Coordenadora e docente do Departamento de Administração e Ciências Contábeis da AJES – Faculdades do Vale do Juruena. E-mail: adm@marafreitas.adm.br.

 

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