André Guarçoni Martins
Doutor em Solos e Nutrição de Plantas na Universidade Federal de Viçosa-MG e pesquisador em Manejo de Culturas no INCAPER
O silício (Si) não é considerado um nutriente para as plantas, pois não satisfaz os critérios de essencialidade. Entretanto, são inegáveis os efeitos benéficos proporcionados pelo Si, especialmente para as gramíneas (arroz, cana-de-açúcar, milho, etc.), consideradas plantas acumuladoras de Si. Este é o segundo elemento em abundância na crosta terrestre, mas solos altamente intemperizados (pobres e ácidos) podem apresentar, naturalmente, baixa concentração de Si. Esse fato pode ser agravado pela prática agrícola muito intensiva.
As plantas absorvem o Si diretamente da solução do solo. Após a absorção, é transportado para a parte aérea e depositado nas paredes celulares na forma de sílica amorfa, principalmente na epiderme foliar. Uma vez depositado, não há translocação para outras partes da planta, ou seja, o Si presente numa folha velha, por exemplo, não irá “migrar” para uma folha nova em crescimento.
Os efeitos benéficos do Si para as plantas estão associados às funções estruturais e de defesa, podendo aumentar a produção de forma indireta. Nesse caso, haveria uma melhoria na arquitetura da planta, reduzindo o auto-sombreamento e o acamamento, e uma maior rigidez estrutural dos tecidos, criando uma verdadeira “barreira física”, o que aumentaria a resistência a pragas e doenças. Além disso, a deposição de sílica amorfa junto aos estômatos pode reduzir a taxa de transpiração das plantas, diminuindo o consumo e a perda excessiva de água.
São poucos os trabalhos em que se testou a adubação com silício para café. Uma melhor arquitetura, reduzindo o auto-sombreamento, e uma menor transpiração seriam benéficas ao cafeeiro. Entretanto, o cafeeiro não é uma planta acumuladora de Si, como o são as gramíneas, e esses efeitos ainda não foram comprovados cientificamente, ou seja, não há, ainda, um número de trabalhos suficiente para se formatar uma conclusão inequívoca. Por exemplo, Pozza et. al. (2004) avaliando o efeito do silício no controle da cercosporiose em cafeeiro, observaram redução de 63,2% nas folhas lesionadas e de 43% no total de lesões por planta, quando foi adicionado silicato de cálcio (CaSiO3) ao substrato de plantas da variedade Catuaí. Mas, os mesmos autores, não encontraram qualquer efeito sobre as variedades Mundo Novo e Icatú. Nesse caso, vale investir em um produto que não tenha um efeito, comprovadamente, consistente?
Uma grande variedade de materiais tem sido utilizada como fonte de Si para as plantas, tais como escórias de siderurgia, wollastonita, metassilicato de cálcio, metassilicato de sódio, silicato de magnésio (serpentinitos) e silicato de cálcio. Existem, ainda, vários produtos comerciais que apresentam Si em sua formulação, utilizando como base o silicato de cálcio. Dentre os materiais citados, as escórias de siderurgia são, indubitavelmente, os produtos mais baratos. Estas são constituídas principalmente de silicatos de cálcio e magnésio, podendo conter impurezas como P, S, Fe, Zn, Cu, B, Mo, Co, dentre outros. Os silicatos comportam-se de maneira similar aos carbonatos (calcários) no solo e são capazes de elevar o pH, neutralizando o alumínio e outros elementos tóxicos às plantas. Portanto, as escórias de siderurgia podem ser utilizadas como corretivo do solo e fonte de Si, cálcio, magnésio e outros nutrientes. Por outro lado, Barbosa et. al. (2002) observaram maior elevação no pH do solo com aplicação de carbonato de cálcio (calcário) em relação à aplicação de silicato de cálcio, quando fornecidos em quantidades equivalentes.
A solubilidade do Si, nos diferentes tipos de escórias é bastante variável. As escórias de alto forno, normalmente, apresentam maiores teores de Si, enquanto as escórias de aciaria são as que apresentam o Si na forma mais solúvel. Mas ambas disponibilizam mais silício em solos argilosos do que em solos arenosos.
As escórias podem conter, entretanto, quantidades apreciáveis de metais pesados, que são extremamente prejudiciais ao meio ambiente. Como as escórias apresentam reação alcalina no solo (elevam o pH), esses metais não ficam disponíveis para as plantas em curto prazo. Mas, com o passar do tempo, o pH do solo tende a diminuir, disponibilizando os metais pesados para absorção pelas plantas. Além disso, plantas que acidificam a rizosfera (região próxima à raiz) tendem a absorver esses metais em taxas elevadas, quando presentes no meio. É no mínimo curioso que vários trabalhos, onde as escórias são utilizadas como corretivo de solo, não façam qualquer menção a esta característica.
Devido à limitada solubilização das fontes de silício, quanto mais moído for o material, maior quantidade de Si será disponibilizada para as plantas. Portanto, devem-se preferir as fontes em pó em relação às granuladas (Korndorfer et al., 2002). Prado et. al. (2004) também observaram que a correção do solo com escórias foi mais eficiente quando utilizaram a menor granulometria testada.
Não foi definida, ainda, a quantidade máxima de Si a ser aplicada, nem se identificou efeito tóxico deste elemento para as plantas. Contudo, considerando o efeito corretivo dos silicatos, doses elevadas desses compostos podem provocar aumento excessivo no pH do solo, reduzindo a disponibilidade de micronutrientes e fósforo para as plantas (Korndorfer et al., 2003).
De qualquer forma, existem pesquisas mostrando o aumento na produtividade de certas culturas, principalmente gramíneas, com aplicação de silicatos. Carvalho-Pupatto et. al. (2004) observaram maior crescimento radicular e produção do arroz, irrigado por aspersão, quando foi aplicada escória de alto-forno, em relação à testemunha que não recebeu corretivo. Esse fato é relevante, pois o solo apresentava, originalmente, baixo pH e teores não adequados de cálcio e magnésio. Caso a testemunha tivesse recebido calcário como corretivo, talvez o quadro fosse modificado. Já Silveira Jr. et al. (2003) compararam a aplicação de silicato de cálcio e calcário em cana-de-açúcar e observaram maior produção quando foi aplicado o silicato, devido à maior tolerância ao estresse hídrico e à melhoria na arquitetura das folhas, o que permitiria maior eficiência fotossintética. Mas, nesse caso, deve-se lembrar que a cana-de-açúcar é uma planta acumuladora de Si.
Alguns trabalhos mostram efeitos positivos das fontes silicatadas sobre outras culturas, mas não conseguem separar o efeito do Si de outros efeitos agregados, como a elevação do pH, o fornecimento de cálcio, magnésio e outros nutrientes. Existem pesquisadores sérios e capacitados tentando elucidar a questão do Si na agricultura, mas faltam, ainda, resultados mais consistentes relacionados a um maior número de culturas e solos. Só assim pode-se garantir que determinado produto adquirido (geralmente caro) irá gerar um resultado previamente conhecido.
Parece haver, na verdade, um modismo exacerbado em relação ao Si, transformando-o na “salvação da lavoura”. Nesse caso, mesmo aqueles que pregam sua utilização devem concordar em um ponto: o cafeicultor, antes de se preocupar em aplicar silício em sua lavoura, deve prestar mais atenção ao manejo básico da nutrição, o que irá, sem sombra de dúvida, aumentar a produtividade e a lucratividade de forma consistente.
Literatura Citada
Barbosa, s.c.s.; Alcoforado, p.a.u.g.; Costa, j.p.v.; Albuquerque, a.w.; Reis, l.s.; Bastos, a.l. Adição de carbonato, silício e fósforo nas propriedades químicas de três solos do estado de Alagoas. FERTBIO – Rio de Janeiro, 2002. CD-ROOM.
Carvalho-Pupatto, J.G.; Büll, L.T.; Crusciol, C.A.C. Atributos químicos do solo, crescimento radicular e produtividade do arroz de acordo com a aplicação de escórias. Pesq. agropec. bras., Brasília, 12(39): 1213-1218, 2004.
KORNDÖRFER, G. H.; PEREIRA, H.; CAMARGO, M.S. Silicatos de Cálcio e Magnésio na Agricultura. Boletim Técnico n.1 – 2. ed. Universidade Federal de Uberlândia – Instituto de Ciências Agrárias – Uberlândia, MG, 2003.
Korndorfer, g.h.; Pereira, h.s.; Silva, m.f.; Gama, a.j.m. Melo, s.p.; Camargo; m.s. Avaliação de fontes de silício por meio de testes de incubação. FERTBIO – Rio de Janeiro, 2002. CD-ROOM.
Pozza, A.A.A.; Alves, E.; Pozza, E.A.; Carvalho, J.G.; Montanari, M.; Guimarães, P.T.G.; Santos, D.M. Efeito do Silício no Controle da Cercosporiose em Três Variedades de Cafeeiro. Fitopatol. bras. 29(2): 185-188, 2004.
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SILVEIRA Jr., E.G.; PENATTI, C.; KORNDORFER, G.H.; CAMARGO, M.S. Silicato de cálcio e calcário na produção e qualidade da cana-de-açúcar – Usina Catanduva. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIA DO SOLO, Ribeirão Preto, 2003. CD-ROOM.