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VELHAS RESPOSTAS PARA NOVAS PERGUNTAS Por Janio Zeferino

A cafeicultura nacional foi abalada recentemente com a notícia da tentativa de importação de café para suprir a indústria de solúvel e torrefação.

 

postado em 15/03/2017 | Há 5 meses

A cafeicultura nacional foi abalada recentemente com a notícia da tentativa de importação de café para suprir a indústria de solúvel e torrefação.
Como previsto houveram manifestações apaixonadas de ambos os lados e o debate perdeu a racionalidade.

Em setembro de 2016, ainda sob de uma seca muito severa a situação das lavouras capixabas era desesperadora e prenunciava falta de produto para suprir a indústria e as exportações.

Em dezembro do ano passado, a indústria propôs importar 430 mil sacas mensais de dezembro/16 a abril/2017, sendo que 230 mil sacas serão reexportadas pela indústria de solúvel na modalidade de drawback.
Depois de muito debate, a CONAB fez um levantamento de estoques que chegou a 2,2 milhões de sacas e os cafeicultores capixabas dizem que o estoque é de 4,2 milhões de sacas. Até esse momento, o imbróglio continua sem solução.      

Nesse texto pretende levá-los à reflexão sobre como os desafios do setor vem sendo enfrentados pela cadeia produtiva do arábica e do robusta.

No mundo inteiro, as empresas e pessoas têm um sócio majoritário chamado Governo e a ele todos recorrem para tudo e por tudo, e, na maioria das vezes a resposta é sempre negativa ou abaixo das expectativas.

Portanto, a primeira resposta velha para as demandas do setor é esperar que a União resolva os impasses entre produção, indústria e mercado consumidor. O Governo por mais que queira é um intermediador de conflitos e suas decisões tem múltiplos impactos e por conta disso, na maioria das vezes, adota a posição que oferece o menor risco ou deixa que como diz o dito popular: “no sacolejo da carroceria as melancias se ajeitam”.

Outra resposta antiga é o meu custo de produção é R$ X e o café nesse preço de hoje não tem como continuar na atividade. Depois do advento das bolsas de valores e derivativos que são muito mais antigas do que muitos pensam, aliadas à internet e a velocidade da circulação de moedas e informações, o peso da relação produção X consumo, que era fator de definição do preço perdeu o grau de importância e tornou-se apenas o “fator de ajuste” das apostas feitas antes do jogo começar, ou seja, quando chega aos 44 minutos do 2º tempo os jogadores refazem as suas posições alinhando seus palpites para o resultado do jogo nesse momento.

Continuando com uma das verdades de antanho, se hoje está por R$ X amanhã vai subir mais um pouco porque a safra vai ser pequena ou no ano que vem vai faltar café etc. A variação de preço é normal e natural e obedece a lógica de que quando a oferta é maior que a demanda o preço cai e vice versa, mas não é só o preço do produto físico no armazém mas principalmente o preço do mercado futuro e de opções, já que os agentes de mercado não trabalham pensando na safra que está na árvore, mas investem na alta ou na baixa da safra que ainda não floresceu.

Mais uma das falácias bem frequentes, o produtor fica com a menor parte porque uma xícara de café na cidade é R$ 5,00 e com um quilo de café dá para fazer 142 xícaras de espresso e 200 de café coado. Acontece que o café é parte, principal parte é verdade, de uma enorme engrenagem que começa bem antes da porteira, passa por ela até chegar nas mãos do consumidor final e nesse percurso somam-se “n” pessoas, processos, insumos e impostos, e, todos têm que ganhar uma parte, uns ficam com um quinhão maior é verdade, mas todos precisam ter lucro para a roda da economia continuar girando.
E na minha opinião a resposta arcaica é que não adianta fazer nada porque o Brasil, os políticos, os líderes do setor não têm jeito e é melhor eu cuidar da minha vida e tentar resolver meus problemas sozinho.

Depois de falar das respostas antigas é hora de falar das novas perguntas.
Você sabia que o FNDE-Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação, do Ministério da Educação não proíbe o café na merenda escolar das crianças da primeira fase do ensino fundamental?

Você já se deu conta de quantos pessoas de até 30 anos das suas relações pessoais não toma café regularmente ou não tomam dia nenhum?
Você já parou para pensar porque os demais agentes do mercado de café não fazem nenhum esforço para que o mercado de opções e de futuros decole?

Você gosta de especular?

O que Você está fazendo em favor da sua atividade?

 Porém, ser engenheiro de obra pronta é o melhor dos mundos porque apontamos os defeitos, criticamos e seguimos em frente sem fazer nada.
Por outro lado, dar palpites e querer ser o “dono da verdade” também é muito fácil.

Depois de tudo que já escrevi quero levantar mais uns pontos para despertar a sua atenção.

Com relação ao Governo, é preciso ter em mente que nenhum governo vai pensar duas vezes quando a solução apresentada representar risco de inflação ou desemprego, já que os políticos em geral só têm medo de uma única coisa na vida que é perder o seu voto na próxima eleição. Assim, o caminho é cobrar dos representantes uma ação firme em defesa da classe, confrontá-los claramente quando eles não agirem dessa forma, retirar o apoio e financiamento para as próximas eleições e lançar novas lideranças que se comprometam com as causas e projetos de interesse geral.  

Quem define o preço é sempre o consumidor. Isso se aplica a gôndola do supermercado e também na hora de comprar os insumos. Por isso, é preciso levar em conta que a “facilidade” tem preço e na maioria das vezes ele está muito bem disfarçado.

Um exemplo clássico são as operações de troca de adubo por café. São muito mais fáceis, rápidas e desburocratizadas que os financiamentos bancários ou operações de mercado. Contudo, quem está na ponta compradora não tem como discutir o preço da mercadoria e isso se aplica, também, aos bancos onde existe um pedágio caro nas operações.

A resposta é planejar, negociar e ter o seu custo de produção real protegido através dos contratos de opção de venda onde se garante a renda e o risco que se corre é de ganhar mais caso o produto suba além do preço de garantia. É difícil, é complicado, é trabalhoso, tem pouca gente confiável que atua no mercado, sim é tudo isso, mas quanto mais se demorar para aprender mais dinheiro, fios de cabelo e saúde você vai perder.

E como eu faço para que o meu quinhão dos R$ 5,00 da xícara aumente? Basicamente investindo na melhoria do seu produto, no beneficiamento e industrialização através de associações, cooperativas ou mesmo individualmente.

Cito o exemplo dos cafeicultores de Carmo de Minas e Divinolândia na agregação de valor e do pessoal do Cerrado Mineiro que agregou valor através do associativismo resultou no reconhecimento internacional da “Denominação de Origem para produção de Café” para 53 municípios da região.      

Penso que se todos se unissem em torno de instituições reconhecidas pela sua expertise haveria uma revolução positiva na cafeicultura. Vou mencionar instituições que fazem um trabalho excepcional em favor do setor que são: a BSCA-Associação Brasileira dos Cafés Especiais, Fundação PROCAFÉ, INCAPER e EMPBRAPA-Café.       
     
Com relação a hora de vender ninguém tem a resposta certa, mas com toda certeza vender em lotes em cada movimento de alta é a melhor postura. Isso é tão óbvio que a grande maioria não acredita e muitas vezes faz igual a aquela fábula antiga da “galinha dos ovos de ouro”, onde por ganância o dono matou a galinha pensando encontra dentro dela milhares de ovos!

Produtor vive dizendo que detesta “especulador” e que esse ser fica com todo o lucro da lavoura. Porém, pensem comigo, quando eu seguro a minha produção e não vendo mesmo quando o preço está subindo, que papel estou assumindo no mercado? Quem produz é sempre vendedor e nunca especulador! Nesse caso, assim como na fábula a esperteza demais engole o dono.

Como disse anteriormente, o mercado olha para as gemas que ainda nem apontaram nós olhamos para as flores e os frutos na árvore.    
Percebe como essa diferença de visão do negócio café impacta diretamente o seu resultado, seu planejamento e sua vida?       
 
Quem serão os consumidores de café no Brasil nos próximos 40 anos?
Os estudos da ABIC demonstram que as classes C, D e E são os grandes consumidores de café e são extremamente sensíveis as variações de preço.
Outra constatação é que apesar do consumo entre os jovens estar em alta, existe um gap dos anos 1980 a até muito poucos anos atrás de que todos diziam que o café fazia mal à saúde e quem nasceu nesse período não teve café na sua infância e não desenvolveu o hábito do consumo regular diário.
Somado a tudo isso os gestores da merenda escolar continuam restringindo o acesso ao café nas escolas públicas.

Por outro lado, o consumo mundial cresce bem mais que o consumo interno pelas mais diversas razões.

Para que o nosso negócio continue perene é preciso aumentar o consumo interno, melhorar qualidade para agregar valor, exportar cada vez mais produto industrializado e abrir novos mercados nos países onde o consumo de café é baixo ou inexistente, mas sem pensar na China como solução de todos os problemas. A China é concorrente e não mercado em tudo que dá lucro.
Que tal investir nos países emergentes do leste europeu, Ásia e Oriente Médio?

Por fim, a resposta para a maioria dos problemas está na velha máxima que duas cabeças pensam melhor que uma.

Quando o pessoal do algodão sentiu o peso dos subsídios americanos, depois de passar anos atrás de uma ação direta do Governo Federal, se reuniram, se cotizaram, contrataram um advogado e entraram com uma ação na OMC, o tempo passou e ganharam a ação e uma indenização de US$ 300 milhões e mais uma parcela anual para investir na educação dos trabalhadores.
Hoje somos gigantes na exportação de proteína animal e isso foi muito mais pela ação direta das associações de produtores e industriais do que pela ação governamental.

Quem está em 1.500 municípios e sempre foi o motor que impulsionou esse País não pode por falta de união, comprometimento e liderança sucumbir diante dos desafios impostos pelos mais 80 competidores internacionais.
Parafraseando os torcedores nos estádios, EU ACREDITO NA CAFEICULTURA BRASILEIRA, mesmo estando o jogo 7 a 1 para eles e o 2º tempo já começou! Dá para virar esse jogo e só depende de Você!  

Janio Zeferino da Silva

*Diretor da Agroeasy Consultoria Agronegócios  

 

 

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