Mercado

UM ÚNICO GRÁFICO EXPLICA TUDO? Por Rodrigo Costa

 

postado em 13/12/2015 | Há 2 anos

Os investidores mundiais ajustaram suas posições para a reunião do FOMC (equivalente ao COPOM brasileiro) esperando o primeiro aumento da taxa de juros americanos desde 2006. A grande maioria dos analistas acredita que os discursos desde o último encontro dos delegados juntamente com dados da economia dos Estados Unidos serem fortes o suficiente para a mudança de rumo da política monetária, muito embora haja pressões deflacionárias provenientes das quedas das commodities.

A grande surpresa é um eventual “não-ajuste” que poderia atrair a compra de ativos de risco. A atenção será forte também para o texto que será emitido pelo comitê dando “dicas” sobre próximos incrementos e seu ritmo.

A queda do barril do petróleo nos mercados internacionais para níveis de 2009, US$ 35.46 (WTI) e US$ 37.89 (Brent), foi o destaque do noticiário e a razão principal atribuída para a liquidação das bolsas acionárias. Na Europa e nos Estados Unidos os principais índices cederam entre 3% 5% nos últimos cinco dias, tendo o Dow Jones e o S&P500 acumulando perdas no ano de 3.23% e 2.33%, respectivamente.

Os três mais seguidos índices de commodities fizeram novas mínimas liderados pelo colapso de 14.65% do óleo de aquecimento, 11.21% do petróleo, 9.21% do gás natural e 5.81% do açúcar demerara. Entre os componentes do CRB só o suco de laranja, o trigo, o cobre e o algodão fecharam em território positivo.

O café estava segurando bem até a quinta-feira, mas na sexta-feira com a forte desvalorização do Real Brasileiro, do Peso Colombiano (novas mínimas históricas) e o com quadro macroeconômico negativo acabou não aguentando e escorregou US$ 5.15 centavos – praticamente a perda da semana que foi de US$ 5.75 centavos por libra-peso.

A falta de força do contrato “C” de se manter acima da média-móvel de 100 dias (126.60), depois dos fundos terem liquidado 11,936 lotes de sua posição vendida e os comerciais terem adicionado 7,669 novas vendas nos livros não ajudaram Nova Iorque a seguir a trajetória de alta.

Se o físico movimentado nas origens se dava a diferenciais apertados o movimento do terminal tornou ainda mais proibitivo o custo de reposição, razão que pode fazer aqueles que precisam de café tentar de alguma forma balancear suas necessidades com o mercado futuro. Em algum momento isto voltará a prover suporte para o flat-price (bolsa).

O clima no norte do Espírito Santo continua desfavorável para a tentativa de recuperação plena dos cafezais, sendo que um número maior de agentes tem revisado suas perspectivas de produção do conillon.

Um dos maiores negociadores de café no mundo divulgou, em seu relatório trimestral, que no ciclo atual (15/16) há um déficit mundial de 4.9 milhões de sacas, estimando a safra corrente brasileira em 48.3 milhões de sacas, sendo 32.2 milhões de arábica e 16.1 milhões de conillon. Em 14/15 o déficit foi de 5.5 milhões de sacas, segundo divulgado pela Bloomberg os números do respeitado dealer.

Dado que o consumo mundial continua crescendo e os estoques no destino não terem aumentado na mesma proporção dos volumosos embarques de Brasil e Colômbia, tudo indica que a situação permanecerá justa, sendo que os estoques de arábica vão encerrar o ano-safra em patamares muito pequenos nas origens. Salvo os certificados Londrinos e o carry-over Vietnamita, que podem ter um bom valor com uma quebra do conillon brasileiro, devemos ver um aperto no primeiro semestre de 2016. Os certificados de Nova Iorque devem acelerar a queda de agora em diante, considerando a firmeza do basis.

Por falar em embarques, o Brasil embarcou 3.37 milhões de sacas em Novembro e com o andar da carruagem caminha para bater um novo recorde de exportação no ano. Este e o câmbio são praticamente os únicos fatores negativos.

A chegada do fim de 2015 nos faz refletir sobre o comportamento dos mercados, e alguns profissionais que se dedicam “apenas” ao café naturalmente buscam explicações às oscilações dos preços unicamente ao fluxo de negócios, clima e aos especuladores. Entretanto não custa lembrar que a moeda faz parte dos fatores intrínsecos, e se o dólar nos últimos 10 anos explicou em 74% das vezes as mudanças do preço do petróleo, a história recente não foi muito diferente com o café.

Todos os administradores de recursos usam moeda americana como bússola e se alguém tivesse a chance de apresentar um único slide em uma hipotética e surreal competição para explicar o que aconteceu com o café, o gráfico abaixo poderia ser suficiente para ganhar a atenção da platéia.


(linha branca é o café em NY, vermelha o índice de commodities SGPCSI, e a verde o Índice do Dólar)

Este é o último comentário do ano e aproveito para agradecer os inúmeros feedbacks que recebo, pessoalmente e via mídias eletrônicas, sobre este exercício de analisar o mercado que faço semanalmente para a Archer e que é divulgado em diversos sites.

Desejo um excelente Natal e um Ano Novo com muita saúde a todos os leitores e seus familiares.

Voltarei a escrever no fim de semana após o Carnaval.

Rodrigo Costa*

*Rodrigo Corrêa da Costa escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting

 

Veja tambÉm: