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CAFÉ – PREJUÍZOS ASSUSTADORES Por Armando Matielli

 

postado em 04/03/2014 | Há 3 anos

A seca lambe tudo pela frente. É mais nociva que uma geada, principalmente nessa época do ano. A seca corre entre os vales, nas planícies, nos planaltos, nos grotões, nas montanhas, nas encostas, nos sopés, nos topos, nos cumes, ou seja, não escolhe cantos nem recantos. A geada ocorre em locais específicos.
Essa seca ficará marcada na nossa geração de cafeicultores, como o pior evento climático já ocorrido.  Ainda, os reflexos virão nos anos vindouros como:
- A diminuição de hormônios e compostos que impelem diversos ângulos fisiológicos do cafeeiro;
- Queda na produção de Carboidratos;
- Queda na produção de auxinas e citocininas que passaremos a descrever abaixo;
- Inibição da conversão de nutrientes em massas produtivas e de órgãos de sobrevivência;
- Estrangulamento do sistema radicular. Atrasando o próximo ciclo produtivo para 2016/2017, pois, terá que recuperar o sistema radicular e a posteriori as partes vegetativas como as ramas plagiotrópicos, que são os produtivos, onde originam as gemas florais na intersecção do par de folhas com o ramo donde originarão flores e rosetas.
> AUXINAS: Hormônios responsáveis pelo alongamento das células. São normalmente produzidos pelos meristemas. Em condições de seca como estamos atravessando, agora, ocorre uma baixa produção de auxinas que interferem juntamente com outros hormônios, nos distintos processos fisiológicos das plantas, inibindo o crescimento dos ramos plagiotrópicos, ortotrópicos e do próprio sistema radicular. As baixas concentrações das auxinas inibindo o desenvolvimento das partes citadas e, logicamente interferem diretamente na queda de produção de forma marcante.
> CITOCININA: É o hormônio responsável pela divisão celular. Normalmente o sistema radicular produz a citocinina que é transportada pelo xilema, levando para todos os órgãos da planta. Nos frutos, no caso do café, estimula a divisão celular e o crescimento. A Citocinina atua em conjunto com a Auxina, sendo responsáveis pela divisão e alongamento celular simultaneamente e com isso, formam-se folhas, raízes, flores e frutos. A Citocinina ainda é responsável pela mobilização dos nutrientes. A baixa produção de Citocinina diminui o crescimento para as principais fontes de dreno dos frutos dos cafeeiros.

Portanto, os hormônios vegetais, tanto a Auxina e a Citocinina são fundamentais no processo produtivo do cafeeiro e são inibidos pela seca em decorrência a menor fotossíntese e fechamento dos estômatos.
Para elucidar o exposto passamos abaixo:

 

 


Regime Hídrico - Guapé

 

 


REGIME HIDRICO GUAPÉ / MG DURANTE 23 ANOS
     
ANO x HISTÓRICO (mm) x Anual 2013/2014 (mm)
Set 69  165 EFETIVO 
out 115  81 EFETIVO 
Nov 178  153 EFETIVO 
Dez 276  164 EFETIVO 
Jan 346 944 mm 19 EFETIVO 418 mm
Fev 215  16 EFETIVO 
Mar 187  187 MEDIA 
Abr 76  76 MEDIA 
Mai 64  64 MEDIA 
Jun 22  22 MEDIA 
Jul 16  16 MEDIA 
Ago 18  18 MEDIA 
 1582 mm 100% 981 mm 62% 

Observa-se que dentro do ano civil, temos na média histórica, 944 mm e nesse ano teremos uma somatória de 418, ou seja, 526 mm a menor no índice pluviométrico. Com esse índice pluviométrico de somente 418 mm até agosto, torna-se praticamente, impossível a produção cafeeira (vide argumentos no decorrer no artigo).

Comparando esse ano com a média histórica, temos 601 ml de chuvas a menor. Representa a média do cinturão cafeeiro e próximo dos levantamentos do PROCAFÉ (MAPA).

Esse regime hídrico acima exposto demonstra a catástrofe climática para a safra atual, como a vindoura. A Safra de 2015/2016 com a florada prevista, para setembro / outubro do ano vigente, ocorrerá em um ambiente de extrema secura com consequências previsíveis em relação ao percentual de quebra para 2015/2016. A secura do ar aliado à secura do solo obrigará a desidratação dos tecidos e ocorrerá uma violenta disputa entre os órgãos da planta no encalço da minguada disponibilidade de água e de substâncias nutricionais.

Nesta briga fisiológica vencerão aqueles órgãos munidos de maior força de sucção osmótica, sendo que folhas jovens roubam nutrientes e compostos das folhas mais velhas. Os mais prejudicados serão os botões florais e frutos pequenos (chumbinhos) que na maioria abortam. Pouca água, pouca fotossíntese e cessando a transpiração. Não vingarão as floradas e originarão um grande numero de grãos chochos que é muito comum em anos como tal. Ano seco, planta debilitada, solo seco, vegetação seca, recursos hídricos pobres e, o cafeeiro procurará se proteger, fechando os estômatos das folhas para não perder mais água e a planta deixa de receber gás carbônico que é um elemento primordial a elaboração da seiva e consequentemente prejudicará a fotossíntese. Esse será o cenário na próxima florada (setembro / outubro vindouro) o que levará a prejuízos expressivos, com grande probabilidade de perdermos acima de 50% da produção de 2015/2016. Além disso, as gemas florais começam a crescer e inicia a diferenciação quando paralisa ou diminui o desenvolvimento vegetativo. Isso é normal entre os períodos das chuvas e o inicio de período seco. Como ocorreu um período de seca, numa época totalmente atípica, poderemos ter floradas á partir da retomada das chuvas, agora em março ou abril, o que será um desastre na produção.

O sensacionalismo passa longe da técnica. Como agrônomo, sabemos que o ar, a luz, a água e a planta são fundamentais para a produção de alimentos e outros. Quando um dos fatores expostos é insuficiente, os prejuízos são inevitáveis e catastróficos. Nesse caso, relatado, temos 601 milímetros de água a menor que a normalidade, ou seja, 60 cm de uma coluna de água cobrindo totalmente o solo em toda sua extensão. Drástico!

O mercado, os cafeicultores, ou seja, ninguém esperava por uma situação tão particular e incomum, mas, também servirá de alerta que a prática do “Just in Time” deverá ser repensada, pois, o mercado poderá ficar desabastecido e esse fato servirá de alerta para voltarmos a trabalhar com estoques nos armazéns que estarão protegidos desses adventos climáticos. Não podemos ficar a vida toda acostumados a pensar que a produção agrícola é robotizada e com logística como o setor industrial. A Natureza é sábia e soberana e nos ensina a respeitá-la. Precisamos aprender que a natureza foge dos nossos computadores e corre ao seu bel prazer, por caminhos distintos aos gráficos e estudos teóricos dos excelentes executivos e grandes comerciantes. PENSEM!!!

Armando Matielli
Engº Agrônomo
Cafeicultor – Guapé /MG
MBA em Agronegócio pela FGV e diretor da SINCAL

 

Comentários

 

José Luciano Domiciano da Silva 

produtor de café em Piumhi, região do Rochedo. Falavam numa perda de até 40%. Mas fazia um mês que não ia à fazenda. Fui neste fim de semana e voltei assustado e aturdido. A perda nas lavouras mais altas chega aos 80% e nas mais baixas e úmidas, aí sim coisa de 40%. Não sei nem por onde recomeçar!


 

 

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