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Artigo : O novo mundo do café Por Paulo Henrique Leme

A expectativa para o ano de 2012 era muito interessante. Pela primeira vez na história recente do agronegócio café mundial os estoques mundiais estavam praticamente “zerados” sem ser por motivos climáticos ou naturais.

 

postado em 20/02/2013 | Há 4 anos

Artigo : O novo mundo do café Por Paulo Henrique Leme

20/02/2013  Café da terra


Por Paulo Henrique Leme

A expectativa para o ano de 2012 era muito interessante. Pela primeira vez na história recente do agronegócio café mundial os estoques mundiais estavam praticamente “zerados” sem ser por motivos climáticos ou naturais. O mundo possuía café em estoque para apenas três meses de consumo. Os cafés centro-americanos e o colombiano se encontravam em dificuldades de produção para atender sua demanda, o que abriu espaço para os cafés de qualidade brasileiros, em especial para o cereja descascado. O Vietnã por sua vez não demonstrava condições estruturais para aumentar significativamente sua produção de café Robusta.

Do lado do consumo, as tendências eram positivas, pois apesar da crise mundial, o consumo de café seguia crescendo nos países produtores, emergentes, e estável nos tradicionais consumidores. O consumo de cafés gourmet e certificados também crescia, e a indústria mundial sinalizava a necessidade de obter maiores volumes de cafés sustentáveis em um curto prazo de tempo. Pois bem, alguma coisa deu errado.

Devemos olhar o passado recente com crítica, pois nunca ficou tão claro quanto em 2012 o tanto que necessitamos de informações de qualidade, sejam elas dados estatísticos ou pesquisas de mercado. Uma má interpretação, e uma incapacidade de enxergar o óbvio fizeram com que muitas pessoas ficassem sem poder explicar os motivos pelos quais os preços do café não subiram, e mesmo caíram em 2012.

O primeiro fato recorre na velha incompreensão da importância dos consumidores finais na cadeia do café. Sim, o mercado cafeeiro global é dominado por 4 ou 5 grandes indústrias que ditam as regras do mercado. Sim, estamos “distantes” dos consumidores finais. Sim, o mundo está enfrentado uma crise financeira de ordem global. Porém, se a composição dos blends de café mudou ou se novos produtos ganharam seu espaço, como as cápsulas de café, isto ocorreu com a anuência dos consumidores finais. Podemos até questionar se o consumo de café não estaria crescendo mais se a qualidade geral dos produtos fosse melhor (como é o caso do mercado brasileiro), porém, sem dados quantitativos ou mesmo qualitativos que comprovem esta tese, isto não passa de especulação. Afinal, apesar da crise, o mercado continua a crescer.

Assistimos ao crescimento da participação do Robusta nos blends nos mercados tradicionais (EUA e Europa), onde o Vietnã se tornou grande fornecedor. No mercado nacional, o Conilon representa, no mínimo, de 50 a 60% das 21 milhões de sacas consumidas no Brasil. Nos emergentes, o café solúvel e as bebidas prontas para beber (latinhas e caixinhas) são as vedetes do consumo. Em ambos os casos, a base é o Robusta.

Ainda assim, preferimos acreditar que o conceito de qualidade se refere única e exclusivamente aos agradáveis sabores e aromas de um bom café Arábica. Neste caso, erramos. Os conceitos de qualidade que mais atenderam ao mercado consumidor foram praticidade (solúvel), conveniência (cápsulas) e preços competitivos. O Arábica brasileiro ficou “caro” demais para a indústria. Dói ouvir isto, porque sabemos que os custos de produção só estão crescendo…

Tudo isto seria relevado se do outro lado da equação houvesse, realmente, a falta de café. Isto nos leva ao segundo fato que “cegou” as análises de 2012. Os dados consolidados pela OIC das exportações de 2012 assustam.

O Vietnã saltou suas exportações de 2011 para 2012 simplesmente de 17 para 25 milhões de sacas aproximadamente ! Sim, foram 8 milhões de sacas a mais no mercado mundial. Ou aproximadamente 30% do total exportado pelo Brasil em 2012. É muita coisa.
E os compradores internacionais fizeram com o Arábica brasileiro o mesmo que fizeram com os cafés colombianos: substituíram, mesmo correndo o risco de mudar os blends de forma acentuada. No caso dos suaves colombianos e centrais, estes foram substituídos pelo nosso cereja descascado em 2011. Em 2012, nosso Arábica natural foi substituído pelo Robusta vietnamita. Fontes extraoficiais afirmam que traders internacionais chegaram a oferecer no mercado um blend “Brasil sintético”, ou uma mistura de aproximadamente 80% de Robusta com 20% de café Arábica centro-americano. Um horror para o paladar e para o mercado.

O fato é que paradigmas foram quebrados na safra 2012/2013. A indústria internacional trabalha agora com estoques baixos, sem impactos imediatos nos preços globais, como qualquer analista poderia imaginar. O Robusta já ocupa 50% da produção e do consumo mundial. A bienalidade da produção brasileira é história (pelo menos até a próxima geada ou seca generalizada). Existem sim Robustas de qualidade. O poder de produção do Vietnã foi subestimado mais uma vez… De normal, apenas o fato de que o Brasil falhou em suas análises mais uma vez, por simples falta de organização de dados e planejamento.

O que nos resta? São duas as linhas estratégicas para este momento. A primeira, iniciar uma “revolução do Arábica”, em termos de marketing, posicionamento e de estratégias dentro da lavoura (mecanização, irrigação, etc.). Usar uma comunicação literalmente agressiva, atacando o Robusta e o Conilon e levando aos consumidores finais as vantagens e diferenciais do café Arábica em relação ao concorrente. Pois bem, esta é uma estratégia agressiva, cara em recursos e desgastante em termos políticos. Para deixar claro, um verdadeiro suicídio “coletivo”, já que ataca os irmãos brasileiros produtores de Conilon e não o inimigo concorrente principal, que é o Robusta vietnamita*.

A segunda opção estratégica é buscar na organização e na política saídas inteligentes para fortalecer a cafeicultura brasileira como um todo, incluindo aí a indústria torrefadora nacional e os produtores de Conilon do Brasil. Melhorar a qualidade e a competitividade do Conilon brasileiro visando competir com o Vietnã nas exportações, fazer a “revolução do Arábica” dentro da lavoura de montanha, desenvolver, de forma muito comprometida, uma plataforma de exportação de café torrado, torrado e moído e solúvel, à base de muitos subsídios e proteção governamental, posicionar as origens brasileiras em mercados específicos, adequados às características de nossos cafés, posicionar o Brasil como plataforma mundial no fornecimento de cafés sustentáveis (e contar ao mundo que produzimos assim)… Pois bem, está uma estratégica que requer mais neurônios, com muito esforço político e articulação.

Certo ou errado, sonhos ou pesadelos, o fato é que existe um “novo mundo do café”, e precisamos nos adequar à sua estrutura para mudar seus rumos novamente.

Fonte: Réplica autorizada pelo autor. Paulo Henrique Leme é Consultor em Marketing estratégico no Agronegócio, especializado em café. Professor e Doutorando em Administração na UFLA.

 

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