Produção

Do campo para a cafeteria

 

postado em 27/01/2012 | Há 6 anos

Estado de Minas


Minas e o Brasil não podem abrir mão de nenhuma modalidade de cafeicultura, tanto as tecnificadas quanto as que empregam mão de obra em larga escala
 
Roberto Simões - Presidente do Sistema Faemg (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais)

O consumo de café no Brasil vem crescendo 4% ao ano, o que significa a industrialização de 19 milhões de sacas no período. Enquanto isso, no mundo, a expansão não passa da metade. Para 2012, a Organização Internacional do Café (OIC) estima que a taxa fique em 1,5%. Em 2010, o Brasil colheu 48 milhões de sacas, e em 2011 houve uma queda de 10%. Minas Gerais produz 25,1 milhões de sacas (52% do total nacional) e exporta 22,9 milhões, auferindo uma receita cambial de US$ 4,8 bilhões. O país vendeu para o exterior 29,8 milhões de sacas, faturando US$ 5,1 bilhões.

Como o Brasil responde hoje por 30% da produção mundial, seu café é apreciado globalmente. O país é o segundo maior consumidor, perdendo apenas para os Estados Unidos, mas, em termos per capita, nossos números deixam a desejar. Nos últimos anos, o segmento das cafeterias teve um crescimento extraordinário; surgiu, discretamente, na esteira dos grãos (café verde) de qualidade superior. Essa situação vem se consolidando com várias iniciativas institucionais tanto públicas quanto privadas, como a criação da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), nos moldes de uma congênere norte-americana.

Embora tenha passado por um período de ostracismo, levando a economia cafeeira à estagnação, o mercado volta a viver uma fase de euforia por conta de produtos valorizados pela qualidade nos mercados interno e externo, enquanto os embarques de café torrado e moído são ainda pequenos, mas com grande potencial para crescer. A abertura de cafeterias vem conquistando consumidores, inclusive jovens, por oferecer uma gama de produtos em atrativas (e caras) versões. Restaurantes de primeira linha também oferecem cafés de qualidade para ancorar suas rebuscadas refeições. Hoje, nas grandes cidades dos cinco continentes, tradicionais cafés convivem com modernas cafeterias, ambos empenhados em servir de modo mais convidativo a tão apreciada bebida.

Diversas iniciativas têm contribuído para o aumento do consumo interno de café: denominação de origem (terroir), cultura orgânica, comércio justo (fair trade) e trato natural, entre outras. Tais tipos de certificação dão qualificação ao produto, atuando como efetivo marketing na divulgação da qualidade do grão, inclusive extrapolando suas fronteiras geográficas. Não há duvida de que haverá crescimento ainda maior nesse segmento, pois o atavismo do brasileiro é muito forte por tudo que já foi dito, escrito e romanceado nesses quase 300 anos de convivência diária.

Mesmo com o requinte do café expresso nas sofisticadas cafeterias e dos cafés dos grandes centros urbanos, não se deve desprezar o tradicional cafezinho do interior do país, mesmo aquele servido nas casas simples, de aroma irresistível, cada vez mais saboroso com a melhoria da qualidade do grão.

“Vamos tomar um cafezinho?” é um convite – dificilmente recusado – bem brasileiro, mais ainda mineiro, e que faz parte do cotidiano de muitos povos. Talvez isso explique o fato de que, depois de séculos de sua introdução na alimentação humana, o hábito de tomar café tem seu pódio garantido mesmo diante de todas as transformações tecnológicas como bebida ícone da globalização, por estar incorporado à cultura de todo o planeta.

A bebida, originária da região de Kaffa (daí café), na Etiópia, tendo sido utilizada e disseminada mundo afora pelos povos árabes, o que dá razão ao nome da principal variedade (Coffea arabica), a mais consumida na forma tradicional. Já o espécime robusta ou conillon (Coffea canephora), com elevado teor de cafeína, é mais utilizado na formação de blends e na indústria de solúvel, segmento que absorve hoje cerca de 25 milhões de sacas no mercado mundial.

Há exatos 285 anos chegavam ao Brasil as primeiras mudas de café. Foram trazidas da Guiana Francesa pelo sargento-mor Francisco de Mello Palheta. Desde então o precioso grão passou a despertar interesse e deu grande contribuição ao desenvolvimento nacional, bancando o início da industrialização e promovendo a interiorização, sobretudo com a construção das ferrovias para viabilizar seu transporte até os principais portos. Por muito tempo foi o item mais importante no comércio externo brasileiro.

Minas e o Brasil, hoje, não podem abrir mão de nenhuma modalidade de cafeicultura, tanto as tecnificadas quanto as que empregam mão de obra em larga escala, em áreas acidentadas, de custo bem mais elevado. Urge que os pequenos produtores recebam apoio dos órgãos de fomento e pesquisa para que possam evitar repassar sua safra ao mercado apenas como uma simples commodity. O produto desses importantes agentes da cafeicultura nacional também precisa acabar nas mesas das cafeterias, de Minas, do Brasil e do mundo .

 

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