Mercado

Cenário incerto

 

postado em 28/09/2011 | Há 5 anos

Valor

28/09/2011 
  
O agravamento da crise europeia e as persistentes demonstrações de debilidade da economia americana terminaram por turvar o horizonte nos mercados globais de commodities agrícolas e minerais, desafiando a capacidade de antevisão e planejamento dos principais players. Exportadores brasileiros de grãos e de minerais ainda apostam na preservação dos mercados conquistados a partir de meados da década passada, quando a demanda mundial entrou em aceleração, sob liderança dos países asiáticos - muito especialmente em função da voracidade chinesa -, turbinando os preços.

O excesso de liquidez global exerceu papel complementar no processo de escalada das cotações das commodities, com a consequente intensificação da atuação de fundos de investimento e de hedge nesta área. Muitas dessas condições ainda não chegaram a ser radicalmente afetadas pela crise, mas já não há tantas certezas como no passado recente a respeito do que acontecerá com os preços daqui para frente. "Fazer previsões é sempre um desafio, principalmente quando se trata de antecipar o futuro", brinca o ex-ministro Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro), repetindo um comentário usualmente atribuído ao renomado físico dinamarquês Niels Bohr.

Os chamados "fundamentos", observa Rodrigues, ainda continuam apontando para a perspectiva de sustentação dos preços dos alimentos, levando-se em conta que a produção não cresceu na mesma proporção da demanda, o que reduziu os estoques de passagem em todo o mundo.

Os dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês) mostram queda de quase 18% nos estoques mundiais de grãos entre as safras de 2000/01 e 2011/12, de 539,43 milhões para 443,20 milhões de toneladas. As reservas de grãos, que eram suficientes para cobrir quase um terço do consumo mundial, passaram a responder por apenas 19,5% da demanda total.

Nos primeiros 20 dias de setembro, os preços médios das commodities nas bolsas internacionais caíram entre 1,7% e quase 22% na comparação com agosto, sugerindo uma reversão da tendência de alta observada nos primeiros meses deste ano. Na verdade, com poucas exceções, esses produtos ainda têm alguma gordura para queimar em função das altas acumuladas nos últimos 24 meses, como nos casos do café, do suco de laranja, do algodão, do milho e da soja. As cotações médias acumuladas nos primeiros 20 dias de setembro ainda se encontravam, nesses casos, entre 21,7% (a exemplo da soja em grão) e até 78% (no caso do milho) acima da média registrada em setembro de 2009.

Adicionalmente, a recente escalada do dólar tem, até aqui, compensado o movimento de retração das cotações externas, embora um eventual prolongamento desse processo de desinflação dos preços das commodities possa ainda anular esse efeito. O impacto dessa combinação de fatores sobre a pauta brasileira de exportações será percebido com maior nitidez no trimestre final, mas quase ninguém arrisca palpites sobre o que deverá acontecer dali para frente. O mercado continua instável e não há certeza a respeito dos níveis em que os preços deverão se estabilizar.

O fato inegável é a crescente importância relativa das commodities básicas para as exportações totais do Brasil. Em estudo recente, Fernanda De Negri, técnica de planejamento e pesquisa do Instituto de Economia Aplicada (Ipea), e o estatístico Gustavo Varela Alvarenga, também do Ipea, mostram que a participação desses produtos na pauta manteve-se entre 37% e pouco mais de 40% até 2008, quando atingiu 43%, saltando para 49% em 2009 e 51% no ano passado. "A ampliação da participação das commodities nas exportações foi de uma intensidade sem precedentes, pelo menos nos últimos 15 anos", mostra o trabalho. Essa arrancada elevou a participação brasileira nas exportações globais de commodities primárias de 2,77% em 2000 para 4,66% em 2009, fatia que deve ter se aproximado dos 5% no ano passado.

Responsável por quase 9% das exportações do país, o complexo soja deverá bater seu próprio recorde em 2011, exportando US$ 22,85 bilhões, alta de 33,5% em relação a 2010, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove). Em volume, isso corresponderá a quase 30% das exportações mundiais de soja e derivados. "Apesar da crise, a demanda por proteínas continuará avançando", afirma Fábio Trigueirinho, secretário executivo da entidade

 

Veja tambÉm: