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"Cafeicultura prática"

 

postado em 28/06/2011 | Há 6 anos

Terça, 28 de junho de 2011, 08h03 "Cafeicultura prática"

Rui Daher
De São Paulo (SP)


"Café sem cafeína parece alguma coisa como homem sem alma, mulher sem graça, pimenta sem ardor, vinho sem álcool. Algo para enganar os sentidos, sem possuir a sua própria realidade íntima. Não se pede ao café somente o gosto, mas o estímulo do seu elemento essencial, o vigor que a cafeína infunde no sistema nervoso".

O texto acima é de Austregésilo de Athayde (1898-1993), jornalista e escritor pernambucano que, entre 1958 e a data de sua morte, presidiu a Academia Brasileira de Letras, e está no frontispício do livro "Cafeicultura Prática", dos engenheiros agrônomos José Peres Romero e João Carlos Peres Romero (Editora Agronômica Ceres, 1997), amigos de longa data embora bissextos, fato que São Paulo teima em nos reservar.

O tema me chega através de outro velho amigo, este de frequência quase cotidiana e cuidados redobrados com a saúde, que informa ter passado a beber somente café descafeinado.

A coluna não tem sabedoria para entrar no mérito da questão. Leigo, já vi o leite ser anotado por curar e causar azia; a manteiga ser substituída pela margarina e retornar à condição de saudável; os ovos terem condenadas suas gema e clara, além de ofendidas, como inócuas, as cascas depositadas em vasos de antúrios.

Com ou sem cafeína, no entanto, depois da água, o café é a bebida mais consumida no mundo. Em 2010, foram 130 milhões de sacas de 60 kg. Deixa para trás leite, refrigerantes, chás, sucos e as alcoólicas. Seus usuários, invariavelmente, o associam às sensações de bem estar, disposição, energia.

Como tudo o que ocorre hoje com a demanda vem seguido da explicação "devido ao aumento do consumo nos países emergentes", essa também é a razão para o café estar projetado crescer na base de 3% ao ano nesta década.

Estamos falando, pois, de 3,5 a 4,0 milhões de sacas a mais por ano, que não poderão sair dos estoques atuais, já em níveis bastante baixos. Restará crescer a produção.

O Brasil responde por cerca de 30% da exportação de café verde, que tende a crescer. No mercado interno, entre 2003 e 2010, o consumo per capita de café torrado aumentou 3,74% ao ano, para perto dos 5 kg/habitante/ano.

Assim, para manter a participação no mercado externo e responder ao consumo interno, nossa cafeicultura precisará produzir cerca de dois milhões de sacas a mais por ano.

Nos últimos dez anos, a produção média foi de 40,5 milhões de sacas beneficiadas de 60 kg. Até 2020, precisaria chegar perto de 43 milhões. Dá?

O histórico do período mostra queda na área plantada. De 2,60 para 2,28 milhões de hectares. Como o fato não se repete com o número de covas em formação e produção, que passou de 5,9 para 6,5 bilhões, e a produção tem crescido, entende-se a existência de mais áreas adensadas, aplicação de tecnologia, melhores manejos e amenização dos ciclos bienais. Enfim, produtividade.

Nos últimos três anos, impulsionado por bons preços de mercado, o plantio de novos cafezais voltou a crescer e se intensificou a reforma dos esgotados.

Tudo o que confirma frase e sorriso ouvidos na semana passada de um cafeicultor de Machado/MG: "café a quase seiscentos contos é pra lá de bom".

É verdade que os preços não deverão ficar nesse nível, mas quando caírem não será para níveis apocalípticos. Com um senão: que a excitação do momento não leve a expansões desordenadas.

Vivemos no País uma situação de quase pleno emprego. A colheita de café, que ora se processa, mostra escassez e altos custos de mão de obra. É mais um quadro que, felizmente, não deverá mudar.

Aumentar o ritmo da expansão? Pode ser. Mas a memória não precisa ir muito longe para se encontrar com os horrores de um mercado muito ofertado.


Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

Fale com Rui Daher: rui_daher@terra.com.br

 

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