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Esgoto tratado irriga a agricultura, o meio ambiente e a economia

 

postado em 29/12/2010 | Há 7 anos

Brasil Econômico

ESPECIAL
29/12/2010
 
Esgoto tratado irriga a agricultura, o meio ambiente e a economia
Crescimento do agronegócio brasileiro amplia o potencial para utilização dos efluentes gerados nas estações de tratamento de esgotos na irrigação. Preservada, a água potável terá uso nobre
 

O esgoto urbano não precisa ser o eterno vilão, que polui rios e solo. Tratado, ele pode ser reutilizado na agricultura, economizando água potável, recurso raro em várias regiões do planeta. Há cerca de dez anos, uma ampla pesquisa sobre o reúso da água de esgoto tratado, na agricultura, vem sendo realizada na cidade paulista de Lins. Lá, foi montado umcampo experimental, com sete hectares, na estação de tratamento de esgoto da cidade, numa parceria com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e a Universidade de São Paulo (USP). Há ainda um campo,menor, de 1,7 hectare, em Piracicaba, que começou a funcionarem2004. A coordenação do trabalho é de Célia Regina Montes, professora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da Universidade de São Paulo. “O projeto começou em 2000 com o objetivo de melhorar a qualidade dos rios, pois o esgoto tratado quando chega aos mananciais ainda tem muitos nutrientes, que provocam a proliferação de algas, que retiram o oxigênio da água, causando, inclusive, a mortandade de peixes”, explica a pesquisadora.

Entre as atividades desenvolvidas pelo homem,a agricultura éumdos setores que mais consome água, por meio da irrigação das plantações. “O crescimento do agronegócio no Brasil, em especial no Estado de São Paulo, aliado ao fato de que sistemas de tratamento de esgoto geram grandes quantidades de águas residuais, mostrou a existência de um grande potencial para a utilização dos efluentes gerados nas Estações de Tratamento de Esgotos na irrigação. Com isso, utiliza-se menos água própria para outros consumos humanos.” No caso da agricultura, os nutrientes como fósforo, nitrogênio e potássio, que permanecem nos efluentes de esgoto tratado, serão benéficos às plantações, gerando economia para os agricultores, pois eles terão de colocar menores quantidades desses elementos químicos para adubar o solo.

Célia esclarece que o reúso de efluentes de esgoto tratado não deve ser aproveitado em qualquer plantação. “Só utilizamos esses efluentes para irrigar culturas que serão processadas industrialmente após a colheita, como é o caso da cana-de-açúcar, que se transforma em etanol e açúcar, e de milho, café, girassol, soja e capim Tifton, a ser transformado em feno.” O processo industrial, com altas temperaturas, elimina bactérias como os coliformesfecais e totais, não acarretando riscos à saúde do homem. E para ter certeza de que o efluente não está causando prejuízos ambientais nem sanitários, as plantas, o solo e a água do lençol freático, que está abaixo dele, são analisados periodicamente.

A pesquisadora destaca mais uma vantagem do reúso dos efluentes de esgoto tratado na agricultura: “É uma água que tem produção estável o ano todo, não depende de chuva.” Ela esclarece que os esgotos industriais não entraram no projeto porque elestêmcaracterísticas diferentes, compostos indesejáveis que devem ser tratados separadamente. “Além disso e talvez o mais relevante é que as regiões agrícolas são menos industrializadas e, portanto, o importante do ponto de vista de quantidade e qualidade é o esgoto doméstico”, completa Célia.

COMO FUNCIONA
O sistema é simples. “Captamos o efluente diretamente da lagoa de estabilização, um tratamento secundário, quando já se retiraram 100% dos germes. Ele vai para um reservatório e depois é bombeado como um sistema de irrigação normal”, afirma Célia. Na experiência feita com o capim Tifton, foram plantadas diversas parcelas, cada uma delas recebeu percentuais diferentes de adubo químico e de efluente do esgoto tratado. A eficiência do sistema também dependedo clima.“Quando chove mais, eu irrigo menos. Então, vai entrar menos nitrogênio que vem do efluente. Houve, em um ano, economia de fertilizante nitrogenado mineral da ordem de 30%.No ano seguinte, 80%”, diz Célia.

BARREIRAS AO REÚSO
Luiz Paulo de Almeida Neto, superintendente regional da Sabesp, explica que o tratamento dos efluentes do esgoto urbano retira entre 80% e 90% da carga residual. Ao invés de despejar efluentes nos rios, com 10% a 20% de resíduos, a ideia é aproveitá-lo para irrigar lavouras, uma tecnologia usada em Israel, Austrália, Estados Unidos, Egito, Arábia Saudita, Tunísia e Chile. Nesses países, o reúso obedece a padrões de qualidade, definidos por organismos ambientais e pela Organização Mundial de Saúde, que asseguram a proteção tanto do meio ambiente, como da saúde humana.

“Em Israel, local muito seco, todo o esgoto tratado é aproveitado na agricultura. Aqui no Brasil isso ainda não é possível, pois a coleta de esgoto em todo o País é de, em média, 50%. A região Nordeste tem poucos sistemas de coleta e tratamento de esgoto. A região Sudeste é onde esse trabalho é mais bem realizado. Só em São Paulo, 80%do esgoto é coletado e tratado.” Almeida Neto lembra ainda que para a irrigação da lavoura ser feita com esgoto tratado, é preciso que as Estações de Tratamento estejam próximas às áreas de plantio. Quando isso não é possível, o transporte terá de ser equacionado, sendo um item adicional de custo.

Almeida Neto diz que os métodos utilizados em outros países nem sempre servem para a nossa realidade, pois há diferenças climáticas, de solo, lençol freático. “Na Austrália, por exemplo, se utiliza o esgoto in natura em pastos, nos quais o gado é suspenso por um tempo, enquanto a luz solar e o clima seco exercem o papel germicida. Outra barreira à utilização dos efluentes de esgoto tratado é a falta de legislação específica.

O tema vem sendo discutido no Conselho Nacional de Recursos Hídricos, queem 2005 aprovou a resolução nº 54 que estabelece modalidades, diretrizes e critérios gerais para a prática de reúso direto não potável de água. Nessa resolução são estabelecidas cinco modalidades e, entre elas, está o reúso para fins agrícolas e florestais. Mas para entrar em prática cada modalidade precisa de uma resolução específica.

 

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