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35 ANOS da Geada de 75 que varreu o café do Paraná e determinou a nova agricultura

 

postado em 17/07/2010 | Há 7 anos

Folha de Londrina

RURAL
17/07/2010

Widson Schwartz
Especial para a FOLHA DE LONDRINA
  
Amanhã, fará 35 anos que a geada negra, sem precedentes, dizimou 100% da cafeicultura paranaense, zerando a produção e abrindo espaço para uma novo produto de exportação, a soja 

Arquivo MIS/PR / Jaime Canet sentiu na pele a Geada Negra, como governador e como produtor de café
Jaime Canet sentiu na pele a Geada Negra, como governador e como produtor de café
(Arquivo MIS/PR)

O branco do gelo tomou conta da paisagem contrastando com os cafezais torrados
\'\'Pela ação fulminante no Norte do Paraná, os pioneiros mudaram em 20 anos a geografia do café no Brasil e instalaram aqui as bases do mais denso celeiro alimentar do país\'\', lembrou Omar Mazzei Guimarães, pioneiro e presidente da Sociedade Rural do Norte do Paraná (SRNP) em 1967. Referia-se à colonização do Norte Novo de Londrina (1930-1950) que, embora sob o signo do café, não era monocultora, predominando as pequenas propriedades diversificadas.

O discurso, escrito para a abertura da Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina de 1967, fazia reparos ao programa de erradicação de cafezais na década de 1960, pressuposto de diversificação que Omar classificava de \'\'artificial, que nos está levando à pior das monoculturas, a do capim\'\'(*). Mas, na década seguinte, uma outra ação fulminante, a geada negra na noite de 17 para 18 de julho de 1975, \'\'varre\'\' todo o café no Norte do Paraná, determinando a consolidação de uma nova agricultura a partir da rotação soja-trigo, com elevado ônus social.

\'\'Na década de 70, o Paraná deixou de olhar para si mesmo, de manter seu relativo equilíbrio social, receptivo às migrações, para dar-se ao País como o produtor para a exportação\'\', define uma análise da Secretaria de Planejamento do Estado. \'\'Voltou os olhos para o oceano, colocou as setas dirigidas ao Porto de Paranaguá, encheu os celeiros de soja, esvaziou o campo de homens, colocou a máquina e encheram-se as cidades.\'\'

Amanhã, fará 35 anos que aquela \'\'onda polar extremamente severa\'\' e sem precedentes atingiu 75% da cafeicultura brasileira, 100% a do Paraná, 45% a de São Paulo e de 15 a 20% a do sul de Minas Gerais, conforme o registro de Wilson Baggio. \'\'Foi o tiro de misericórdia na cafeicultura\'\', cuja expansão atingira o limite agroclimático, em face de localizações inadequadas, afirma hoje Florindo Dalberto. À época, designado pelo Instituto Brasileiro do Café (IBC), participara da implantação do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), do qual seria coordenador de Difusão de Tecnologia e presidente.

No Paraná, foram eliminados 200 milhões de cafeeiros e danificados os restantes 700 milhões, que correspondiam, no total, a 32% de participação na produção brasileira, zerando a safra estadual de 1976. Atingidos no tronco, os remanescentes \'\'transformaram-se em lavouras em formação, através das brotações\'\' juntamente com plantios novos. E essas lavouras ainda seriam drasticamente prejudicadas em 1978 e 1979, mais pela sensibilidade, por se encontrarem em fase de recuperação, do que pelas geadas, relativamente de pequena intensidade.

\'Tsunami\'

Para se traduzir o efeito daquela geada, pode-se equipará-la a um \'\'tsunami\'\' desses que ocorrem na Ásia, segundo o ex-cafeicultor Nagib Abudi Filho. O declínio do café no Paraná se tornou irreversível e hoje ocupa menos de 100 mil hectares, tendo regredido de 1,8 milhão em 1961.

Aos 85 anos, Wilson Baggio já não tem café, embora mantenha a empresa rural juntamente com os filhos e ainda seja membro da Comissão Técnica de Café da Federação da Agricultura do Paraná (Faep) e do Conselho Nacional do Café. \'\'O ano de 1975 foi o marco divisor, que fez o Paraná perder a hegemonia para o norte de São Paulo e Minas Gerais\'\', resume Baggio à FOLHA.

Desde 1939 em Cornélio Procópio e com a experiência de quem tomou mais de uma dezena de geadas, ele recorda \'\'o impacto terrível\'\' em 1975, atingidos todo o café em suas fazendas, aproximadamente um milhão de pés - \'\'não sobrou nada\'\' -, a pastagem, encostas, mata virgem, capoeira, milho, frutíferas e o trigo, típica cultura de inverno. Nem a nebulização artificial intensa, durante a noite, atenuou os efeitos.

A geada branca se caracteriza pelo pouco vento; a de 75 foi negra, com \'\'o vento gelado soprando do sul, vindo da Cordilheira dos Andes, enchendo os vales e transbordando para lugares mais altos\'\', explica Baggio.

Chovera dois dias antes e na tarde de 17 começou a nevar em Curitiba, recorda Nagib Abudi Filho. Chegando em caminhonete à fazenda, em Cambé, às 6 horas da manhã seguinte, encontrou gelo na estrada. \'\'Fui patinando em cima do gelo, nunca tinha visto coisa igual. No abrigo, o termômetro registrava sete graus abaixo.\'\' Na propriedade de 96 alqueires, começara a plantar soja em 1973, substituindo o café em um terço da área. No dia 19 de julho de 1975, todos os cafeeiros estavam \'\'queimados\'\' e começou a arrancá-los, usando cabo de aço e trator.

A colheita precedera a geada e, segundo Wilson Baggio, quem não tinha vendido \'\'aparentemente\'\' se beneficiou, porque os preços subiram 300% sobre o valor de US$ 50 por saca, chegando a US$ 300. Já os que venderam antes da geada, perderam muito e houve até mesmo aqueles que tiveram de vender a propriedade.

 

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