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OPINIÃO - Relatório da discórdia Por Ricardo Strenger

 

postado em 23/09/2009 | Há 8 anos


Confesso que tive dificuldade de escrever algo sobre o relatório “Análise Estrutural da Cafeicultura Brasileira”. Fiquei muito impressionado com a forma que ele foi apresentado e redigido, pois há muitas incongruências, inconsistências e maldades.
O relatório apresenta conceitos velhos, infantis e requentados, atendendo a interesses que não são os do cafeicultor, os quais deveriam ser o objeto da análise.

Estas estórias de Vietnã, Draw Back, Alemanha, Robusta, custo de produção, estoques, qualidade, insuficiência de renda, mercado internacional, leilões, Colômbia, etc, etc...,são assuntos já amplamente discutidos, sabidos pelo mercado e que foram colocados de maneira a acharem, que os leitores seriam imbecis, lendo uma peça literária. Todas estas análises, até mesmo sobre café Robusta,crise e desunião, já foram discutidas no livro de Jorge Dumont Villares, em 1927.

O relatório é totalmente inconsistente e tendencioso, levando o leitor a crer em mentiras, que de tanto as dizerem, pensam que acabarão parecendo verdades. Premiam os outros elos da cadeia, enaltecem e se baseiam nos números do Departamento de Estado Americano (USDA), que são um disparate, um absurdo.

No dia 29/11/2000 a APAC já denunciava o Draw Back, e no ano de 2001, já analisou todos os tópicos deste relatório, e apresentou propostas estruturais para mudar a comercialização do café. Não fomos ouvidos, pois os nossos interlocutores, que são os mesmos de hoje, estavam preocupados em renegociar dívidas. Oito anos depois a mesma coisa, renegociar dívidas.
O Sr. Manoel Bertone, já foi autor intelectual de vários planos econômicos para a cafeicultura brasileira diga-se, todos fracassados. Agora apresenta mais um, que deve dar em nada, e só gerará mais desespero. O relatório não apresenta nenhuma proposta estrutural para solucionar os problemas de renda do cafeicultor. Nós da APAC apresentamos propostas estruturais. Sabem o que aconteceu? O Sr. Bertone, em recente reunião em Varginha, desqualificou nossa proposta de reativação da ABCA (Associação Brasileira de Café Arábica),apesar de não exercer cargo de liderança de liderança de classe e, portanto, não ser qualificado para isso, apresentando como motivo principal a desunião que isto provocaria, e que o momento não seria para isto. Estas palavras são requentadas, pois em 2003, quando da formação da ABCA, diziam a mesma coisa.

Vejam, que viram desunião onde não existia. O que faz este malfadado relatório, além de ofender os produtores brasileiros e de pregar acintosamente a desunião? Em diversas passagens, ele fala do problemático avanço do café Robusta, cujos preços baixos aliados à má qualidade do café Arábica, seriam os causadores das dificuldades atuais.

O relatório confronta, explicitamente, os cafeicultores de Arábica e os cafeicultores de Robusta/Conillon. Como se isto não bastasse, ele afronta os cafeicultores de Arábica em diversas passagens, pregando a discórdia entre estes produtores. Como era de se esperar, os cafeicultores capitalizados estão torcendo para que os “ineficientes” morram, o quanto antes, para poderem usufruir de melhores preços. Isto é perverso e desune a classe.

Sabemos que o Ministério da Agricultura fará política segmentada para o setor. Os cafeicultores de Conillon, como estão declarados no relatório, não precisam de nada. Será?

Ainda diz o relatório, que é uma minoria que está com problema econômico. Será?

Conclui-se, que esta “minoria” está à beira do abismo, e para ele será empurrado pela política do governo.

Os cafeicultores de montanha e os médios produtores também serão abandonados à própria sorte. Se quiserem que plantem eucalipto.

O Sr. Ministro da Agricultura não poderia concluir outra coisa, lendo o relatório, senão que há ineficientes na cafeicultura, e que estes têm que abandonar a atividade. Vários dos partícipes deste relatório e da perversa e estranha “Agenda Estratégica do Café” compuseram o grupo de trabalho 815/827 no ano de 2003, e ali fizeram excelentes propostas estruturais, que coincidiam com as da APAC, e que foram simplesmente abandonadas e esquecidas.

Em agosto de 2001 o editorial do Informativo Garcafé, assinado pelo Sr. Manoel Bertone dizia: “A indústria está propondo o programa de educação do mercado – PEM -, e nós estamos propondo um rígido sistema de controle de impurezas e de esclarecimento dos blends ao consumidor, através de uma lei que discipline a rotulação do produto embalado. Afinal, o consumidor deve saber claramente o que está comprando, inclusive para poder avaliar a relação entre o preço pago pelo café e a qualidade ofertada, sem subterfúgios mercadológicos”. Hoje, perguntamos, o que mudou? Por que as propostas da APAC já não seriam adequadas, entre elas, a rotulação do café e a normatização do grão cru?

A situação é crítica, e em mais duas safras o desespero deverá ser total, pois o mercado é cruel e não admite paternalismo.

As medidas tomadas nesta última década em nada ajudaram o cafeicultor brasileiro. Não adianta passear em Londres e participar de uma reunião da OIC, que é um órgão danoso ao cafeicultor. Nada vai mudar.

Portanto:

Chega de inverdades.
Chega de agendas do mal.
Chega de relatórios espúrios.
Chega de grupos de trabalho.
Chega de lideranças anacrônicas.
Chega de equipes ministeriais tendenciosas.
Chega de CDPC.
Chega de OIC.
Chega de artificialismo.
Chega de malabarismo econômico.
Não podemos mais dar ouvidos a quem prega a discórdia. Chega de relatórios da discórdia.

Ricardo Gonçalves Strenger
Presidente da APAC
Londrina, 23 de setembro de 2009.
ricardostrenger@yahoo.com.br

 

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