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COLHEITA COMEÇA, MAS CUSTO DE PRODUÇÃO DESANIMA CAFEICULTOR

 

postado em 29/04/2009 | Há 9 anos

Agência Estado / Blog do café

Matéria de hoje da Agência Estado, de autoria dos jornalistas Raquel Massote e Tomas Okuda, relata que foi dada a largada para a colheita da safra 2009 de café. Entretanto, há um desânimo geral no que tange à falta de renda e aos elevados custos de produção, superiores aos preços pagos pelo mercado. Leia, abaixo, íntegra da reportagem.

Os produtores de café já deram a largada para a colheita da nova safra 2009/10. Apesar de os tratos culturais realizados nas lavouras terem ficado abaixo do ideal, as chuvas abundantes compensaram em parte a falta de adubo. "Está tudo normal", é o que adianta o analista de café, Jorge Queiroz, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), estatal responsável pela pesquisa oficial sobre os números da safra. Segundo ele, mais detalhes serão divulgados apenas no dia 7 de maio. Na ocasião, a Conab apresentará junto com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a segunda pesquisa sobre a produção de café deste ano.

No primeiro levantamento, anunciado em janeiro, a safra brasileira de café em 2009 foi estimada entre 36,9 milhões e 38,8 milhões de sacas de 60 kg. Os números representam uma redução de 20% a 16% em relação à colheita de 2008, de 46 milhões de sacas, ou seja, uma diminuição média de 8,2 milhões de sacas. Como ocorre todos os anos, os números oficiais são objeto de controvérsias. No mercado circulam estimativas privadas com projeções diferentes. A Exportadora Comexim, por exemplo, prevê a safra em 40,6 milhões de sacas.

A redução da produção, entre outros fatores, é justificada pelo ciclo bienal das lavouras de café arábica, que alternam anos de safra plena com anos de carga menor de grãos. Além disso, houve menor investimento nos tratos culturais, por causa da alta de custo dos insumos. As podas drásticas realizadas por muitos cafeicultores também contribuiu para a queda na produção.

As primeiras lavouras a serem colhidas estão no Espírito Santo e Rondônia, onde se cultiva a variedade robusta (conillon), que corresponde a cerca de 25% da produção nacional. "Vamos ter uma boa safra de robusta porque as lavouras se apresentam em ótimo estado, verdejantes", diz o superintendente Frederico Daher, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Café (Cetcaf), em Vitória (ES). Segundo ele, o robusta é colhido mais cedo, mas os trabalhos começam efetivamente em maio. "Os produtores de robusta estão tranquilos porque os preços são favoráveis e a produtividade tem sido satisfatória", diz Daher.

Agricultura familiar — Se os produtores de robusta vão bem, o mesmo não se pode falar do café arábica. A cultura, que representam cerca de 75% do total de grãos colhidos no País, estão desanimados. "Este deve ser mais um ano perdido em termos de rentabilidade", afirma o pesquisador Celso Vegro, do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo.

Vegro endossa, porém, a avaliação de Daher sobre as boas condições dos produtores de robusta, acrescentando que os cafeicultores familiares, principalmente do Paraná, sudoeste de São Paulo e da zona da mata mineira "conseguem equilibrar as contas porque utilizam mão de obra familiar". Já os produtores de arábica das montanhas do Espírito Santo, do Sul de Minas e também do cerrado "devem estar apreensivos" por causa da baixa rentabilidade.

Conforme Vegro, isso é resultado da elevação do custo de produção, sem um proporcional aumento dos preços do café. "Mas não é só a questão dos adubos, pois a mão de obra, que tem elevada participação nos custos, tem sido reajustada todos os anos acima da inflação", comenta.

Estima-se que o salário mínimo avançou perto de 500% do início do Plano Real, em 1994, até o ano passado. No período, o preço do fertilizante subiu cerca de 560%. Já o preço da saca de café passou de R$ 200,00 para R$ 246,00, ou seja, elevação de apenas 23% no período.

Levantamento da Conab mostra que no sul de Minas, principal região produtora de café do País, o custo de produção alcança R$ 293,41 a saca, para uma produtividade média de 30 sacas por hectare. Na terça-feira (27), conforme apuração do AE Taxas, a saca foi cotada na região a R$ 252,00.

Mesmo em regiões com potencial de boa rentabilidade, como nas áreas produtoras de robusta do Espírito Santo, as contas não fecham positivas. A estatal prevê custo de R$ 256,56 a sacas, para rendimento de 24 sacas por hectare. O produto, no entanto, foi cotado na terça-feira a R$ 195 a saca.

Na zona da mata mineira, onde a colheita começou tímida e o porcentual colhido ainda é considerado pequeno, os trabalhos devem deslanchar nas próximas semanas. Nas demais regiões do Estado, principalmente no sul e no cerrado mineiro, as perspectivas são de que o processo seja iniciado a partir da primeira semana de maio e se intensifique em junho.

Em São Sebastião do Paraíso, conforme o gerente do departamento técnico da cooperativa local (Cooparaíso), Marcelo Moura Almeida, a colheita está um pouco atrasada, já que em boa parte das lavouras apenas a metade dos frutos atingiu o grau de maturação adequado. "Acredito que a partir do dia 10 de maio, 80% dos produtores já devem ter iniciado a colheita". A cooperativa espera receber um volume de 800 mil sacas na safra deste ano, 50% menor do que o total recebido no ano passado.

Segundo o coordenador de Desenvolvimento Técnico da Cooperativa de Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé), Mário Ferraz, também no sul de Minas, as condições climáticas estão favoráveis às lavouras, apesar do início de outono mais chuvoso.

A falta de adubação aliada às temperaturas acima da média histórica e maior incidência de chuvas provocou o aumento da ocorrência de doenças, principalmente ferrugem e cercóspora. No entanto, a avaliação dos técnicos é de que os eventuais danos às plantas só devem ser observados na próxima safra, que será maior, por causa da bienalidade da cultura.

Na região do cerrado mineiro, a avaliação do técnico da Associação dos Cafeicultores da Região de Patrocínio (Acarpa), José Francisco, é de que por enquanto o rendimento das lavouras é considerado normal. "Os produtores andam desanimados por causa dos preços", diz ele. A colheita na região deverá começar a ganhar ritmo apenas em junho.

Renegociação de dívidas — O presidente Gilson Ximenes, do Conselho Nacional do Café (CNC), órgão que reúne as principais cooperativas do setor, está pessimista para o início da colheita. "O produtor vai entrar descapitalizado em uma safra pequena". A expectativa é de que o governo libere para colheita recursos da ordem de R$ 450 milhões, do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé). "Este ano, mais do que nunca, é preciso que os recursos não atrasem", diz Ximenes.

Paralelamente à reivindicação de recursos para colheita, os produtores lutam por uma renegociação das dívidas. Na opinião do analista da Conab, o endividamento do setor é um problema que vem desde 2002, quando o Brasil colheu a maior safra de todos os tempos, da ordem de 48 milhões de sacas. O resultado foi que o excesso de oferta derrubou os preços para níveis recordes, cerca de US$ 43,00 a saca. "Desde então, o estoque de dívidas se acumulou e se tornou um problema que não se consegue resolver".

Um dos pedidos dos cafeicultores é para que seja realizado um programa de leilões de opção de venda ao governo. Por esse mecanismo, se em uma data futura o preço do café no mercado estiver aquém de um valor previamente estabelecido para os leilões, o produtor tem o direito de entregar o produto ao governo pelo preço de referência.

Na avaliação dos produtores, essa é uma forma de garantir sustentação aos preços internos do café. Ao mesmo tempo, o governo poderia recompor estoques, que estão praticamente zerados. O pedido é de recursos da ordem de R$ 900 milhões, o que seria suficiente para lançar contratos para cerca de 3 milhões de sacas.

Os produtores querem, ainda, que todas as dívidas financeiras da cafeicultura, Funcafé e demais fontes do crédito rural, estimadas em cerca de R$ 4,2 bilhões, sejam transformadas em produto físico por um período de 20 anos. O preço base seria de R$ 320 a saca, com pagamento pelo sistema equivalência por produto, correspondente a 5% da dívida financeira total ao ano, sem cobrança de taxa de juros. Essa reivindicação tem sido discutida com o governo desde o fim do ano passado, mas tem encontrado forte resistência da área econômica.

 

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